Quem já ouviu falar de blockchain, provavelmente já ouviu falar sobre sua rastreabilidade. Não é para menos, um dos pilares da tecnologia é o pseudoanonimato.
Ou seja, a capacidade de rastrear movimentações, sem que a pessoa por trás dela seja revelada (a menos que exista algum mandato judicial).
Basicamente, diferentemente do mercado financeiro tradicional, blockchains públicas permitem que qualquer pessoa consulte grande parte das movimentações realizadas na rede.
A análise on-chain transforma informações brutas em indicadores econômicos, que por sua vez ajudam investidores e pesquisadores a entender o comportamento da rede.
Afinal o que é análise on-chain?
De forma objetiva, a análise on-chain é o estudo dos dados registrados diretamente em uma blockchain. No Bitcoin, por exemplo, todas as transações confirmadas ficam registradas publicamente.
É possível acompanhar quando determinada quantidade de BTC foi movimentada e quais endereços participaram daquela operação.
A partir dessas informações, plataformas especializadas organizam os dados e criam métricas mais fáceis de interpretar.
É daí que surgem análises sobre comportamento de baleias, movimentação para exchanges, atividade da rede e comportamento de investidores de curto e longo prazo.
Isso cria uma diferença importante em relação aos mercados tradicionais.
Um investidor não consegue abrir um site e acompanhar todas as transferências de dólares realizadas entre diferentes participantes da economia americana. Em uma blockchain pública, boa parte dessa atividade financeira deixa um registro consultável.
O primeiro passo: exploradores de blockchain
A forma mais simples de conhecer dados on-chain é utilizar um explorador de blocos.
Essas ferramentas funcionam como mecanismos de busca da blockchain. O usuário pode inserir o endereço de uma carteira ou o identificador de uma transação para consultar suas informações. Cada rede blockchain utiliza seu próprio explorador de blocos.
No caso do Bitcoin, é possível observar o valor movimentado, horário, taxa paga e endereços envolvidos. No Ethereum, os exploradores também permitem acompanhar tokens, NFTs e interações com contratos inteligentes.
Para um iniciante, explorar algumas transações já ajuda a entender uma das principais características das criptomoedas: a blockchain funciona como um grande registro de operações.
O que são as baleias?
No mercado cripto, “baleia” é o apelido dado aos participantes que possuem grandes quantidades de determinado ativo.
Por controlarem posições relevantes, suas movimentações recebem bastante atenção.
Quando uma carteira com milhares de bitcoins movimenta seus ativos depois de anos parada, por exemplo, serviços de monitoramento rapidamente identificam a operação.
Isso não significa necessariamente que aquela baleia pretende vender.
Uma transferência pode representar uma mudança de carteira, operação de custódia, movimentação institucional ou diversas outras situações. É justamente por isso que dados on-chain precisam de contexto.
Ainda assim, acompanhar grandes endereços pode oferecer pistas sobre como grandes participantes estão se comportando.
Entrada e saída de criptomoedas das exchanges
Uma das métricas mais conhecidas da análise on-chain acompanha o fluxo de criptomoedas entrando e saindo de exchanges. A lógica é relativamente simples.
Quando grandes quantidades de Bitcoin são enviadas para corretoras, existe a possibilidade de que parte desses ativos seja vendida. Por isso, um aumento expressivo nos depósitos pode indicar maior pressão potencial de venda.
O movimento contrário também chama atenção. Quando investidores retiram Bitcoin das exchanges e enviam para carteiras próprias, esses ativos deixam de estar imediatamente disponíveis para negociação.
Por isso, períodos prolongados de retirada podem ser interpretados como sinal de acumulação ou preferência pela custódia de longo prazo.
Nenhum dos dois indicadores deve ser interpretado isoladamente. Uma empresa também pode reorganizar sua estrutura de custódia e gerar movimentações gigantescas sem que exista qualquer intenção de negociar os ativos.
Endereços ativos ajudam a medir o uso da rede
Outra métrica relativamente simples é a quantidade de endereços ativos. Ela tenta medir quantos endereços estão enviando ou recebendo ativos em determinado período.
Um crescimento consistente pode indicar maior utilização da blockchain. Uma queda prolongada, por outro lado, pode mostrar redução da atividade.
Mas existe uma limitação importante: um endereço não equivale necessariamente a uma pessoa.
Um mesmo investidor pode controlar dezenas de endereços, enquanto uma exchange pode utilizar determinados endereços para representar operações envolvendo milhares de clientes.
Por isso, a métrica funciona melhor como indicador de atividade do que como contagem de usuários.
HODLers e a idade das moedas
A blockchain também permite observar há quanto tempo determinadas moedas não são movimentadas.
Isso ajuda pesquisadores a separar, aproximadamente, investidores que movimentam seus ativos frequentemente daqueles que mantêm Bitcoin por períodos maiores.
Uma grande quantidade de BTC permanecendo parada durante anos pode indicar convicção de investidores de longo prazo. Já a movimentação repentina de moedas antigas costuma chamar atenção do mercado.
Plataformas de análise desenvolveram métricas específicas para acompanhar os chamados long-term holders e short-term holders.
Essa divisão ajuda a observar como diferentes grupos reagem a momentos de alta, queda ou volatilidade.
MVRV: o mercado está caro ou barato?
Entre as métricas mais conhecidas está o MVRV, sigla para Market Value to Realized Value.
O indicador compara o valor de mercado de uma criptomoeda com seu chamado valor realizado.
De forma simplificada, o cálculo tenta comparar quanto o Bitcoin vale atualmente com uma estimativa do preço pelo qual as moedas foram movimentadas pela última vez.
Quando o valor de mercado fica muito acima do valor realizado, uma parcela maior dos investidores tende a carregar lucros não realizados. Quando essa relação diminui bastante, cresce a quantidade de participantes próximos do prejuízo.
Historicamente, investidores utilizam o MVRV para estudar extremos dos ciclos do Bitcoin. Isso não significa, porém, que exista um número mágico capaz de prever exatamente fundos ou topos.
Hashrate: a força computacional do Bitcoin
Nem toda análise on-chain olha apenas para investidores. No Bitcoin, uma métrica importante é o hashrate, que estima a quantidade de poder computacional utilizada pelos mineradores para proteger a rede.
Um hashrate crescente geralmente indica maior quantidade de recursos computacionais dedicados à mineração.
Também existem indicadores específicos para acompanhar mineradores, incluindo reservas, receitas e transferências de BTC desses participantes para exchanges.
Como os mineradores precisam arcar com custos de energia, equipamentos e infraestrutura, seu comportamento também pode oferecer informações sobre a economia interna da rede.
DeFi tornou a análise on-chain ainda maior
No Ethereum e em outras redes de contratos inteligentes, a análise pode ir muito além de transferências.
É possível observar quanto dinheiro está depositado em protocolos de finanças descentralizadas, quais tokens estão sendo negociados em exchanges descentralizadas, empréstimos realizados, stablecoins movimentadas e até posições que estão próximas de liquidação.
Nesse ambiente, métricas como TVL (Total Value Locked) ganharam importância. O indicador tenta medir quanto capital está depositado dentro de determinados protocolos ou ecossistemas DeFi.
A transparência permite acompanhar praticamente em tempo real partes de uma infraestrutura financeira que, no sistema tradicional, permaneceriam dentro dos bancos e instituições.
Onde acompanhar dados on-chain?
O investidor iniciante pode começar gratuitamente pelos próprios exploradores de blockchain. Quem quiser avançar encontra plataformas especializadas como Glassnode, CryptoQuant, Nansen e Dune.
Cada uma possui características diferentes: algumas são voltadas para métricas de mercado, outras para identificação e acompanhamento de carteiras, enquanto o Dune permite criar consultas e dashboards utilizando dados de diferentes blockchains.
Não é necessário acompanhar dezenas de gráficos diariamente. Para quem está começando, entender fluxo de exchanges, comportamento de investidores de longo prazo, atividade da rede e movimentações relevantes já oferece uma boa introdução.
Análise on-chain consegue prever o preço do Bitcoin?
Não. Essa talvez seja a informação mais importante para quem começa a estudar o assunto.
Os dados on-chain mostram o que aconteceu na blockchain e ajudam a criar hipóteses sobre o comportamento dos participantes. Eles não conseguem determinar o que acontecerá com o preço amanhã.
Uma baleia pode enviar milhares de bitcoins para uma exchange e não vender. Investidores podem retirar BTC das corretoras e o preço continuar caindo. Um indicador pode alcançar uma região historicamente associada a fundos e permanecer nela durante meses.
Além disso, cada vez mais atividade relacionada às criptomoedas acontece fora da blockchain, incluindo negociações em exchanges centralizadas, ETFs, derivativos e operações institucionais.
Por isso, a análise on-chain funciona melhor quando combinada com outros elementos, como cenário macroeconômico, liquidez, análise de mercado e fundamentos do projeto.


