A 21Shares, maior emissora de ETPs de criptomoedas do mundo, publicou na última quarta-feira (24) a edição de meio de ano do seu relatório State of Crypto 2026. O documento revisa dez previsões feitas em dezembro de 2025 e chega a uma conclusão que poucos esperavam no início do ano: o ciclo histórico de quatro anos do Bitcoin não foi quebrado.
A seguir:
- Por que a 21Shares admite que errou na previsão central sobre o ciclo do Bitcoin
- Quais das dez projeções para 2026 falharam e quais ainda estão no horizonte
- O que os dados de ETPs, DeFi e mercados de previsão revelam sobre o mercado no segundo semestre
Com o BTC negociado abaixo de US$ 60.000 no momento da publicação e acumulando queda de cerca de 50% desde a máxima histórica de US$ 126.080 atingida em outubro de 2025, a firma mantém uma projeção de recuperação até US$ 100 mil até o fim de 2026. Mas o tom é cauteloso.
O ciclo que não morreu
Havia virado quase consenso no fim de 2025: a entrada dos ETFs institucionais quebraria o padrão cíclico do Bitcoin de uma vez por todas. A 21Shares foi uma das firmas que apostou nessa tese. Seis meses depois, o relatório vai direto ao ponto.
“Entrando em 2026, acreditávamos que o ciclo de quatro anos do Bitcoin poderia ter acabado. Seis meses depois, precisamos ser honestos: a ação de preço ainda parece familiar”, escreveu a equipe de pesquisa, liderada por Eliezer Ndinga, head global de research da firma.
Mas a 21Shares não joga a tese fora. O argumento agora é que o ciclo dobrou, não quebrou. A correção atual, de cerca de 50% desde o pico, é consideravelmente mais branda do que os tombos de 80% ou mais registrados nos ciclos de 2018 e 2022. Além disso, o Bitcoin se mantém acima do custo médio on-chain de US$ 54 mil, nível que historicamente marcou a capitulação total em ciclos anteriores.
Os três cenários para o segundo semestre
O cenário-base projeta recuperação entre US$ 100 mil e US$ 110 mil, condicionada a uma ruptura acima dos US$ 70 mil de resistência. O cenário otimista estende o alvo para a faixa de US$ 150 mil a US$ 180 mil. O cenário pessimista mantém o BTC entre US$ 60 mil e US$ 75 mil, próximo aos níveis atuais.
O estrategista Matt Mena aponta que uma superação dos US$ 70 mil poderia disparar uma liquidação de posições vendidas acumuladas durante a correção, amplificando o movimento de alta. Os fluxos dos ETFs americanos serão o principal indicador a monitorar.
As previsões revisadas: o que funcionou e o que não funcionou
Os ETPs de cripto acumulam US$ 140 bilhões em AUM em maio de 2026, queda de 15% no ano, longe da meta de US$ 400 bilhões. A própria firma reconhece que a queda reflete movimentos de preço, não resgates em massa: as estruturas de ETP ainda mantêm 1,25 milhão de BTC, apenas 8% abaixo das máximas anteriores.
O mercado de stablecoins não chegou a US$ 1 trilhão em capitalização, prejudicado pela demora na aprovação do Clarity Act nos Estados Unidos e pela menor adoção institucional do que o esperado.
O DeFi ficou abaixo dos US$ 300 bilhões em TVL projetados, encerrando a primeira metade do ano próximo dos US$ 140 bilhões. A causa principal: mais de US$ 840 milhões perdidos em mais de 50 exploits, tornando 2026 um dos piores anos para a segurança do setor.
Além disso, as empresas com Bitcoin em tesouraria corporativa acumulam US$ 100 bilhões em valor, bem abaixo da meta de US$ 250 bilhões, ainda que o número de companhias tenha superado 200 e o volume em BTC tenha chegado a 1,28 milhão de unidades.
As apostas que se confirmaram
Nem tudo veio abaixo das expectativas. A consolidação das soluções de escalabilidade do Ethereum ocorreu exatamente como a firma previu. Base, Arbitrum e Optimism concentram hoje 83% de todo o TVL de DeFi em L2, segundo o CryptoNews.net. Rollups sem diferenciação estão enfrentando atrito estrutural ou migração forçada para modelos de app-chain.
As commodities tokenizadas também avançaram conforme projetado, com ouro e energia no centro das estratégias de proteção contra riscos geopolíticos. E os mercados pré-IPO avançam rumo ao mainstream, com uma lista relevante de empresas se formando, de SpaceX a Anthropic.
A previsão que vai superar a meta com folga
O destaque positivo do relatório é o mercado de previsões. A 21Shares havia projetado US$ 100 bilhões em volume anual para plataformas como Kalshi, Polymarket e Hyperliquid. Até o fim de maio, o setor já havia acumulado US$ 57,5 bilhões, bem acima do ritmo necessário para atingir o alvo.
A firma agora projeta que o volume total pode chegar a US$ 200 bilhões até dezembro, impulsionado por catalisadores sazonais como a Copa do Mundo FIFA e as eleições legislativas americanas de meio de mandato.
Contudo, o Brasil e outros países adotaram restrições regulatórias recentes sobre plataformas de apostas em eventos. Isso pode limitar o crescimento regional, mesmo que o volume global continue avançando.
O que o relatório revela sobre o segundo semestre
A leitura central da 21Shares para os próximos seis meses é de continuidade cautelosa. O ambiente macroeconômico segue pressionado por juros elevados e inflação persistente decorrentes dos conflitos no Oriente Médio. Esses fatores limitam o apetite institucional por ativos de risco e explicam parte da distância entre as projeções de dezembro e a realidade de junho.
“Nesta edição, revisitamos cada previsão de forma imparcial, oferecendo uma visão clara e fundamentada de onde o mercado realmente se encontra, e não de onde esperávamos que ele estivesse”, afirmam os autores do relatório, assinado por Eliezer Ndinga, Adrian Fritz, Stephen Coltman, Karim Abdelmawla, Maximilian Michielsen e Matt Mena.
O relatório completo está disponível em inglês no portal da 21Shares. Uma nova edição com projeções para 2027 será publicada no fim deste ano.


