Vagas de emprego e entrevistas com executivos de segurança mostram que Anthropic, dona do Claude, estaria tratando “ativismo” como categoria de ameaça ao lado de terrorismo e crime organizado.
A seguir:
- O que anúncios de vaga e um podcast com chefes de segurança revelaram sobre a operação de inteligência da empresa.
- O elo direto entre esse modelo de “pré-crime” e a aposta bilionária do Brasil em data centers
A Anthropic construiu uma operação interna de inteligência para monitorar ativistas contrários ao avanço da inteligência artificial, revelou uma investigação do The American Prospect publicada na quarta-feira (9). A empresa não respondeu ao pedido de comentário do veículo.
No entanto, o caso importa além dos Estados Unidos. Isso porque o Brasil acaba de aprovar um incentivo bilionário para data centers de IA, mas segue sem lei que regule o uso desses sistemas.
IA tratando ativistas como terroristas?
Parte da arquitetura desse sistema apareceu em um podcast com gestores do centro de operações de segurança da Anthropic e o CEO da Samdesk, empresa de detecção de risco contratada pela companhia. No episódio, um dos gestores descreve um alerta recebido cerca de 60 minutos antes de um protesto reprogramado.
Na ocasião, a equipe usou a informação para traçar uma rota alternativa e levou um executivo por entrada de serviço do hotel, indicando que o monitoramento de manifestações públicas já é operacional, não hipotético.
O ponto sensível não é a proteção de executivos, mas a equiparação categórica entre protesto legítimo e ameaça de segurança dentro do mesmo fluxo de trabalho.
A reportagem também identificou anúncio de vaga para especialista em inteligência corporativa, com faixa salarial entre US$ 180 mil e US$ 230 mil. A descrição pede rastreamento de ameaças globais e cita explicitamente activism (ativismo) ao lado de terrorismo, crime e instabilidade geopolítica.
Por que isso é um problema também para o Brasil
Em 1º de setembro, o Senado aprovou o PL 278/2026, que cria o Redata, regime que suspende Imposto de Importação, PIS/Cofins e IPI para equipamentos de data center por cinco anos.
A estimativa do governo é de renúncia de R$ 5,2 bilhões em 2026 e a justificativa é soberania: de acordo com o Ministério da Fazenda, cerca de 60% dos dados e da IA usados no país são processados no exterior.
Enquanto isso, o PL 2338/2023, marco legal da IA, aguarda parecer na Câmara desde março de 2025. A votação foi adiada para depois das eleições de outubro, deixando o Brasil com infraestrutura incentivada e vácuo normativo ao mesmo tempo.


