Muito se fala sobre como a computação quântica poderá, no futuro, ameaçar os sistemas criptográficos tradicionais — e, com isso, derrubar o Bitcoin (BTC). A narrativa atrai atenção por seu tom apocalíptico: uma tecnologia futurista que poderia, com facilidade, quebrar o código da criptografia SHA-256 e destruir o valor do ativo digital mais seguro da história.
Mas será que isso se sustenta diante dos fatos?
Segundo o físico quântico Rafael Poliseli Teles, membro da plataforma Alphractal e especialista em sistemas de átomos ultrafrios, essa ameaça ainda não passa de FUD (sigla em inglês para medo, incerteza e dúvida).
Em artigo compartilhado com o Cointelegraph Brasil, o pesquisador afirma que, mesmo com os avanços da computação quântica, ainda estamos muito longe de qualquer risco real à segurança do Bitcoin.
Grover e a ameaça ao SHA-256
A segurança do Bitcoin é garantida pelo algoritmo de Prova de Trabalho (Proof of Work, ou PoW), que exige força computacional bruta para encontrar um número (nonce) que satisfaça critérios matemáticos específicos. Esse processo é aleatório e intensivo, e justamente por isso é considerado seguro.
Rafaela Romano, fundadora da SecondB, explica que o algoritmo de Grover, usado em computadores quânticos, pode sim acelerar esse processo:
“O Grover funciona como uma ferramenta especial para problemas de força bruta, conseguindo encontrar respostas em aproximadamente a raiz quadrada das tentativas necessárias classicamente. No caso do SHA-256, saímos de 1,08 × 10⁵⁰ anos (computação clássica) para 3,17 × 10¹¹ anos (computação quântica).”
Mesmo com esse ganho expressivo, o tempo estimado para quebrar a criptografia do Bitcoin cairia para incríveis 317 bilhões de anos, o que representa 23 vezes a idade do universo.
Segundo Rafaela, isso continua sendo inviável:
“Mesmo com esse ganho impressionante, ainda precisaríamos de 317 bilhões de anos para quebrar a criptografia do Bitcoin.”
Computadores quânticos não são curingas
Além do tempo astronômico necessário, existe outra questão: os computadores quânticos não são ideais para todo tipo de tarefa, esclarece Rafaela:
“Também é interessante notar uma questão que muitos desconsideram: a maioria dos problemas clássicos simplesmente não se encaixa bem no paradigma quântico, resultando em vantagens limitadas.”
De fato, segundo Rafael Poliseli, a principal aplicação da computação quântica está em campos como física quântica, química e ciência dos materiais.
“Para a maioria das tarefas práticas e cotidianas, os computadores clássicos continuam dominantes, com a computação quântica reservada para os mistérios do mundo quântico., conclui o físico.
Carteiras antigas também estão seguras quanto à computação quântica?
Algumas preocupações, no entanto, não são infundadas. Carteiras antigas que ainda expõem chaves públicas, como as atribuídas ao criador do Bitcoin, Satoshi Nakamoto, podem, em um futuro distante, se tornar vulneráveis a ataques de engenharia reversa, nos quais a chave privada é inferida a partir da chave pública.
Estudos indicam que isso poderia ocorrer em 5 a 15 anos, caso os avanços quânticos se acelerem de forma drástica.
Por isso, as carteiras mais recentes usam formatos que ocultam as chaves públicas, protegendo os fundos mesmo contra ameaças futuras.
Comunidade de criptomoedas já pensa em soluções pós-quânticas
A boa notícia é que a comunidade de desenvolvedores do Bitcoin não está de braços cruzados. Já existem estudos e propostas para algoritmos de segurança pós-quântica, que possam ser implementados se (ou quando) a ameaça se tornar mais concreta.
A verdade, porém, é que o Bitcoin permanece protegido. Não só pelo seu código, mas também pela matemática que o sustenta.
Assim, o BTC segue firme como um dos sistemas mais resilientes e seguros já criados. Protegido, paradoxalmente, não pela ficção científica, mas pela própria ciência.


