Em um dos maiores aportes do setor no país, as duas empresas vão montar uma rede distribuída de contribuidores para capturar dados de comportamento humano em vídeo o combustível que a robótica e a IA incorporada precisam para evoluir.
A seguir:
- Como o investimento de R$30 milhões vai transformar brasileiros comuns em fontes de dados para treinar robôs e sistemas de IA
- Por que dados de interação física são mais valiosos do que texto para a próxima geração de modelos
- O que as empresas prometem sobre privacidade — e o que isso significa para quem quiser participar
A KGEN, ecossistema global para redes digitais verificadas de usuários, e a Humyn Labs, empresa de infraestrutura de dados para IA, anunciaram um investimento conjunto de mais de R$30 milhões no Brasil ao longo dos próximos 12 meses.
O aporte visa expandir a coleta de dados de interação humana em larga escala para sistemas de IA Física, a vertente da inteligência artificial voltada ao mundo real, presente em robótica, automação e computação espacial.
A iniciativa posiciona o Brasil como hub estratégico em uma corrida global por datasets comportamentais. Sendo assim, o país entra no mapa de fornecedores de dados de alta qualidade para modelos de próxima geração; ao lado de Índia e Sudeste Asiático, onde a Humyn Labs já opera.
O que é IA Física e por que ela precisa de dados humanos
Modelos de linguagem como o GPT ou o Claude foram treinados com trilhões de palavras da internet. Contudo, esse tipo de dado não resolve o problema central da IA Física: ensinar máquinas a entender o espaço, o movimento e o contexto do mundo real.
Segundo a Humyn Labs, a solução está nos dados egocêntricos, captados em primeira pessoa, com câmeras vestíveis ou móveis. Os contribuidores registram tarefas cotidianas como organizar itens domésticos, lavar louça, dobrar roupas e interações em cozinhas.
Esses vídeos validados alimentam modelos treinados para interpretar ações humanas, consciência espacial e contexto ambiental.
O mercado que justifica o investimento
O mercado global de datasets de treinamento de IA foi estimado em US$3,19 bilhões em 2025, segundo dados da Grand View Research. A projeção é atingir US$16,3 bilhões até 2033, com crescimento anual de 22,6%.
A Humyn Labs aponta que dados de IA Física são o segmento de crescimento mais rápido e mais exigente tecnicamente desse mercado.
Além disso, segundo o Business Standard, a empresa comprometeu separadamente US$20 milhões globais em abril de 2026 para expandir operações na Índia, Sudeste Asiático, América Latina e Oriente Médio. O aporte no Brasil faz parte desse movimento mais amplo.
Como a rede vai funcionar no Brasil
O modelo operacional combina geração de dados para IA com renda flexível para participantes. Contribuidores realizam e gravam atividades físicas rotineiras usando câmeras vestíveis ou smartphones.
A rede se expande via indicações e participação comunitária, modelo semelhante ao de plataformas de gig economy, mas voltado à produção de dados estruturados.
A KGEN entra na parceria com sua infraestrutura de verificação de usuários. No sistema chamado “Proof of Expert”, a empresa garante que os dados sejam coletados por humanos verificados, diferencial crítico em um mercado onde dados sintéticos ou fraudados comprometem a qualidade dos modelos.
Transparência e privacidade como protocolo
Mark Ducasble, General Manager LATAM da KGEN, detalhou os protocolos aplicados à coleta: dados pessoais e de contato são mantidos sob criptografia e nunca integram os datasets de treinamento.
Portanto, qualquer conteúdo com informação pessoal identificável, como rostos visíveis, nomes, documentos ou endereços, é descartado automaticamente antes de entrar no pipeline.
Nesse sentido, o projeto afirma seguir padrões da indústria de AI data para validação e proteção de identidade — um ponto relevante dado que o Brasil é regido pela LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).
Brasil entra na corrida global por dados humanos para inteligência artificial
Ishank Gupta, co-fundador da Humyn Labs, afirmou que o Brasil representa “um dos mercados mais importantes para construção de infraestrutura de dados de interação humana para IA Física”.
A diversidade cultural, geográfica e de ambientes domésticos do país aumenta o valor dos datasets produzidos aqui para modelos globais.
Contudo, a escolha também é estratégica em termos de custo-benefício. O Sul Global — Brasil, Índia, Sudeste Asiático — concentra mão de obra para coleta de dados em condições economicamente viáveis. Ao mesmo tempo, oferece diversidade de comportamentos que datasets norte-americanos ou europeus não conseguem replicar.
O que vem a seguir
As empresas esperam escalar significativamente a rede ao longo dos próximos 12 meses. Por fim, o projeto aponta para aplicações em robótica, automação, computação espacial e sistemas de IA incorporada. Categorias que concentram os maiores investimentos da indústria global de tecnologia neste momento.


