Um sistema de reconhecimento facial foi encontrado embutido no aplicativo da Meta, instalado em mais de 50 milhões de celulares, sem que nenhum usuário soubesse.
A seguir:
- Como o código do sistema “NameTag” chegou silenciosamente a dezenas de milhões de dispositivos antes de qualquer anúncio público
- Por que a Meta negou a existência do recurso e, em seguida, apagou
- O que esse episódio revela sobre o futuro dos wearables com IA e os riscos reais à privacidade
A Meta removeu o sistema de reconhecimento facial de seu aplicativo Meta AI, um dia depois de a revista WIRED revelar que o código estava embutido no app desde janeiro, sem ativação pública.
O recurso, chamado internamente de “NameTag”, foi projetado para capturar rostos pelos óculos inteligentes Ray-Ban e compará-los a uma base de dados biométricos armazenada no próprio dispositivo.
Mas a empresa, até horas antes da remoção, negava que o recurso existisse. Esse detalhe muda tudo.
O que era o NameTag e como foi descoberto
A versão do Meta AI publicada no dia da reportagem continha diversas bibliotecas de código nomeadas explicitamente para reconhecimento facial. O sistema era capaz de converter rostos capturados pela câmera dos óculos em assinaturas biométricas únicas, os chamados “faceprints“.
Rostos não identificados eram recortados, indexados e armazenados localmente para processamento futuro. Tudo isso em segundo plano, sem qualquer notificação ao usuário.
Andy Stone, vice-presidente de comunicações da Meta, disse que o recurso “não existe”. Andrew Bosworth, diretor de tecnologia da empresa, chamou a reportagem de “absolutamente desonesta”. No dia seguinte, o código foi removido.
A versão atualizada do app eliminou as bibliotecas de reconhecimento facial, o processo de identificação e o alerta “Pessoa reconhecida” que seria exibido ao usuário. Contudo, segundo análise do TechTimes, alguns fragmentos do sistema ainda permanecem, incluindo um menu de debug interno e um link inativo para perfis identificados.
Por que os óculos inteligentes mudam o jogo
Com um smartphone, reconhecer um rosto requer uma ação deliberada do usuário. Com óculos inteligentes, o processo seria passivo e contínuo. Qualquer pessoa no campo de visão do usuário poderia ser identificada sem jamais ter consentido.
Além disso, a Meta se recusou a responder dez perguntas da WIRED antes da publicação, incluindo se já havia criado a base de faceprints, por quanto tempo os dados seriam retidos e se as imagens seriam enviadas aos servidores da empresa.
O que vem a seguir: regulação ou repetição?
Kade Crockford, diretora do programa de tecnologia para liberdades da ACLU de Massachusetts, foi direta: a remoção do código não desfaz a decisão original de distribuí-lo. A Câmara de Massachusetts aprovou, na mesma semana, um projeto de lei de privacidade do consumidor com mecanismos fortes de aplicação, incluindo o direito privado de ação para que usuários lesados possam processar empresas diretamente.
“As táticas sorrateiras da Meta mostram exatamente por que os projetos de privacidade precisam de mecanismos de enforcement robustos”, disse Crockford.
O padrão que se repete
Em fevereiro de 2026, o New York Times já havia reportado que um memorando interno da Meta descrevia o lançamento do NameTag em um “ambiente político dinâmico”, momento em que defensores de direitos civis estariam distraídos. Portanto, a cronologia sugere uma estratégia deliberada, não um experimento técnico isolado.


