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Como seus dados do Pokémon Go estão sendo usados para treinar robôs

Entenda como a Niantic usou dados de Pokémon GO para treinar robôs de entrega da Coco Robotics e por que especialistas apontam violações à LGPD e GDPR em 2026.

Pokémon Go, da Niantic

A Niantic, empresa responsável pelo jogo Pokémon Go, que foi a grande febre do ano de 2016, revelou que usou dados dos jogadores para treinar robôs de entrega.

No Pokémon Go, pessoas do mundo todo andavam pelas ruas das suas cidades para capturar Pokémon usando a tecnologia de realidade aumentada dos seus smartphones.

Os Pokémon apareciam em lugares reais e, muitas vezes, os jogadores iam a determinado marco para capturar uma criatura rara ou participar de raids (batalhas cooperativas).

O que as pessoas não sabiam era que a Niantic estava coletando dados dos jogadores para criar mapas detalhados das cidades onde o game era jogado.

Agora, ao anunciar uma parceria com a Coco Robotics, a Niantic admitiu que sua experiência em “inteligência artificial espacial” e “sistema de posicionamento visual (VPS)” será utilizada pela empresa de robótica.

O principal produto da companhia é o robô Coco, um drone que foi construído para entregar comida em centros urbanos. Já há uma frota de mais de mil unidades dele, que promete uma precisão de centímetros graças ao uso desse VPS, que é tido como mais confiável do que o sinal de GPS.

No entanto, a experiência vem com a polêmica dos limites do uso de dados pessoais por grandes empresas de tecnologia.

Leis da Europa e do Brasil

Em entrevista ao TechCripto, Jéssica Xavier Santana, advogada do Orizzo Marques Advogados, afirma que como a Coco Robotics opera na Califórnia, nos Estados Unidos, a abertura para a iniciativa é maior, pois o país não possui uma lei específica para tratamento de dados.

Contudo, a situação muda de figura quando pensamos em países como o Brasil e nações europeias. Aqui, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), e lá, o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR, na sigla em inglês), não permitem este tipo de uso.

“Nesses países, a empresa precisa dizer especificamente que dados usa e para que ela usa. Além disso, no caso de menores de idade, todos os dados precisam ser coletados com consentimento expresso do responsável legal”, explica.

Jéssica diz que a forma como a Niantic coleta os dados é indevida, pois dá a entender que as imagens e a localização são apenas para fornecer uma experiência de jogo. Ou seja, o fornecimento dessas informações a terceiros, tal qual a empresa de robôs de entrega, não poderia ocorrer.

O problema se agrava porque o jogador não pode deixar de entregar seus dados de localização.

“Logo que você instala, vem um pop-up pedindo a permissão de localização. Se você não permite, não consegue jogar. Seu consentimento, principalmente com dados compartilhados com terceiros, não é livre”.

Falta de transparência

O principal problema em relação à LGPD é que a Niantic não traz transparência sobre o que está sendo feito com os dados. “Ele fala que pode usar os dados para melhorar produtos e serviços, mas só poderia fazer isso com os serviços do jogo”, comenta Jéssica.

Segundo Marco Zanini, CEO da empresa de segurança e identidade digital Dinamo Networks, o caso chama atenção pela tecnologia utilizada também, pois o sistema VPS realmente proporciona uma precisão muito maior do que os 10 a 30 metros do GPS.

O problema, de acordo com ele, é que se torna um sintoma do avanço da chamada biometria comportamental. Ela ocorre quando um aplicativo liga a câmera da frente do seu celular e captura imagem do rosto ou liga a de trás e captura onde o usuário está.

“Existe uma discussão na biometria comportamental que é: se ele liga sua câmera na rua o que impede de ligar quando você está no banheiro?”, questiona Zanini.

O tema se torna ainda mais sensível com a construção de ferramentas de IA para ataque ao backend de apps, a parte que se conecta ao sistema do celular. Com isso, cibercriminosos poderiam acessar as informações no aplicativo da Niantic.

Gera processo?

Apesar dos problemas com as leis de proteção de dados, Jéssica afirma que ações individuais contra a Niantic têm pouca probabilidade de prosperar. 

“Mesmo demonstrando a questão da não observância à LGPD, o Judiciário entende que precisa provar um dano. Nesse caso, é difícil provar que um dado seu foi utilizado e que você sofreu um dano”, explica. 

Por outro lado, a advogada afirma que vê mais chances em ações coletivas via Ministério Público cobrando por maior transparência da empresa e pedindo indenização aos usuários.

Vale lembrar, contudo, que a Niantic vendeu recentemente sua divisão de jogos para a Scopely, por US$ 3,5 bilhões. Assim, embora ainda tenha os dados coletados do Pokémon Go de 2016 a 2025, não é mais responsável pelo jogo.

Última atualização em 21/05/26 por Viviane Pedro