Veja como os riscos geopolíticos impactam a construção de portfólios hoje.
A seguir:
- Segurança e autonomia estratégica agora superam a eficiência de custos na gestão de países.
- Eventos relacionados a riscos geopolíticos tendem a ser precificados de forma imperfeita e volátil.
- A pergunta crucial para o mercado é se o conflito prejudica a geração de lucros das empresas.
O cenário internacional em 2026 apresenta desafios sem precedentes para quem busca proteger e rentabilizar o capital. A postura agressiva de Donald Trump na Casa Branca, somada ao enfraquecimento deliberado de instituições multilaterais como a OMC e a ONU, transformou o tabuleiro econômico global.
Nesse contexto de incerteza, os riscos geopolíticos voltaram ao topo das preocupações dos grandes gestores de fortunas.
Executivos do Lombard Odier, banco suíço com mais de dois séculos de história, explicam que a globalização tradicional deu lugar a uma nova era de “geoeconomia” e autonomia estratégica.
Entenda como os riscos geopolíticos moldam a geoeconomia
A transição para essa nova ordem exige que o investidor mude sua lente de análise. Michael Strobaek, diretor global de investimentos, e Clément Dumur, gestor de portfólio do Lombard Odier, defendem que a geoeconomia utiliza instrumentos financeiros como verdadeiras ferramentas de poder.
Antigamente, o comércio buscava apenas a eficiência de custos. Hoje, as potências empregam tarifas, tecnologia, energia e sanções para alcançar objetivos políticos claros.
Consequentemente, os riscos geopolíticos agora definem para onde o fluxo de capital e bens pode ou não viajar.
Apesar da ansiedade que as manchetes geram, os autores do artigo “O medo geopolítico se espalha mais rápido que o capital” sugerem cautela com o alarmismo.
Eles observam que o estresse causado por tensões internacionais costuma ter vida curta nos preços dos ativos, a menos que ocorra uma interrupção real nas cadeias de suprimentos ou no mercado de energia.
Historicamente, eventos políticos raramente causam recessões isoladas; na maioria das vezes, eles apenas amplificam fragilidades econômicas que já existiam anteriormente.
Por exemplo, a crise do petróleo em 1973 continua sendo uma das poucas exceções onde um choque político atingiu o cerne da economia global de forma duradoura.
O papel da resiliência frente aos riscos geopolíticos
A “era Trump” acelerou tendências que o choque da pandemia de Covid-19 já havia cristalizado. Os governos perceberam que a interdependência excessiva gerava uma vulnerabilidade perigosa.
Portanto, a prioridade das nações mudou decisivamente: saiu a busca pela eficiência máxima da cadeia de suprimentos e entrou o foco na resiliência absoluta.
Nesse novo modelo operacional, a segurança e a soberania estratégica ocupam o lugar que antes pertencia ao lucro imediato.
Nesse sentido, a política comercial e os subsídios industriais voltaram a servir como peças de diplomacia agressiva.
Os investidores precisam entender que a geoeconomia deixou de ser um conceito de livros acadêmicos para se tornar a realidade operacional das grandes potências.
Quando os riscos geopolíticos se manifestam através de tarifas ou restrições tecnológicas, eles criam limites físicos e fiscais que moldam as decisões governamentais.
Strobaek e Dumur chamam isso de “restrições materiais”, um conceito que engloba a energia disponível e a capacidade produtiva real de cada nação.
Lucros corporativos e os riscos geopolíticos de longo prazo
Um erro comum no mercado envolve a reação exagerada ao chamado “ruído geopolítico”. Pesquisas citadas pelos executivos do Lombard Odier mostram que o mercado costuma ignorar tensões prolongadas quando elas não geram rupturas econômicas imediatas.
O índice VIX, conhecido como o medidor do medo, frequentemente reage de forma intensa, porém limitada no tempo. Isso ocorre porque os mercados financeiros continuam ancorados, essencialmente, na capacidade das empresas de gerarem lucros.
Ademais, o investidor disciplinado deve focar no que realmente importa para a saúde financeira de um portfólio.
Se o evento internacional não prejudica a demanda ou não eleva os custos de forma permanente, ele dificilmente deixará cicatrizes profundas nas avaliações das empresas.
Empresas sólidas tendem a preservar o crescimento de seus lucros mesmo em ambientes de fragmentação global, sustentando o emprego e o consumo.
Portanto, tratar os riscos geopolíticos como um elemento de alocação estratégica de longo prazo, e não como um gatilho para decisões táticas desesperadas, parece ser o caminho mais sensato.
O Lombard Odier, que gere mais de R$ 2 trilhões globalmente e expandiu sua atuação para o Brasil recentemente, reforça que a tarefa atual não consiste em prever o próximo choque internacional.
O objetivo real deve ser a construção de portfólios resilientes o suficiente para suportar as transformações da nova ordem mundial.
Se um evento geopolítico não atinge canais essenciais como gargalos logísticos ou tecnologia crítica, ele permanece sendo apenas ruído de mercado.
No final das contas, o capital se adapta, mas a disciplina do investidor em ignorar o medo passageiro define quem terá sucesso nesta nova geoeconomia.


