A tokenização de ativos pode chegar a US$ 14 trilhões até 2030, mas transformar ativos reais em tokens exige mais do que blockchain. Para Luis Ayala, da BitGo, custódia, regulação e liquidez serão decisivas.
A seguir:
- Por que criar um token é apenas a primeira etapa da tokenização
- O desafio de conectar blockchain a imóveis, crédito, agro e outros ativos físicos
- Por que o Brasil pode ganhar relevância na próxima fase desse mercado
A tokenização já deixou de ser apenas uma experiência tecnológica. Títulos públicos, ações e instrumentos de crédito estão sendo representados em blockchain, aproximando o mercado financeiro tradicional da infraestrutura digital.
O problema começa quando o ativo existe fora da blockchain. Luis Ayala, diretor para a América Latina da BitGo, afirma que o próximo desafio será criar uma infraestrutura capaz de conectar esses ativos ao ambiente on-chain.
Na avaliação de Ayala, a tecnologia já demonstrou seu potencial. Agora, o mercado precisa desenvolver o arcabouço regulatório, operacional e de liquidez necessário para permitir o uso institucional em escala.
O problema não é criar o token
Criar um token deixou de ser a principal barreira tecnológica. O desafio é estabelecer o que aquele token representa fora da blockchain.
Um token pode registrar uma transferência em segundos. Isso não significa que a propriedade, a garantia ou o direito econômico associado a ele tenha mudado de mãos.
Ayala explica que ainda são necessários processos capazes de estabelecer a propriedade, verificar as garantias, administrar os direitos legais e assegurar que a representação digital corresponda ao ativo subjacente.
Esse problema aparece com mais força quando a tokenização chega aos chamados ativos do mundo real.
Uma operação envolvendo um título público possui uma infraestrutura jurídica e financeira consolidada. Já uma operação lastreada em uma safra, um imóvel ou um rebanho envolve outras camadas de verificação.
A blockchain registra o token. Ela não comprova sozinha a existência do ativo físico.
É justamente nessa conexão que a infraestrutura tradicional passa a ter um papel central.
O que precisa existir por trás de um token
Para Ayala, a expansão da tokenização depende do amadurecimento simultâneo de diferentes componentes.
Entre eles estão maior clareza regulatória, tecnologia de custódia e carteiras, infraestrutura de liquidação, interoperabilidade, compliance, gestão de riscos e liquidez.
O executivo também destaca a necessidade de harmonização regulatória entre os principais mercados. Segundo ele, investidores institucionais precisam de regras claras sobre propriedade, custódia, liquidação, reporte e proteção ao investidor.
A tecnologia, portanto, é apenas uma parte da equação.
Sem essas estruturas, um token pode existir tecnicamente sem necessariamente oferecer a segurança e a eficiência esperadas de um ativo financeiro.
O próximo passo é sair dos ativos mais simples
O mercado de tokenização ainda está concentrado em ativos relativamente fáceis de estruturar, quase 80% dos ativos tokenizados on-chain estão concentrados em títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
Esse movimento faz sentido, títulos públicos possuem mercados líquidos, estruturas jurídicas consolidadas e processos conhecidos de emissão, negociação e custódia.
Mas Ayala espera que o mercado avance para outras categorias.O diretor da BitGo cita ações, crédito, mercados privados, imóveis e outros ativos do mundo real entre os segmentos que já despertam interesse.
A mudança é relevante porque esses ativos apresentam problemas que não podem ser resolvidos apenas com código.
Da Tesla ao imóvel brasileiro
O comportamento dos investidores latino-americanos ajuda a mostrar essa diferença, entre os ativos tokenizados mais negociados por investidores da região estão ações americanas como Tesla, Nvidia e MicroStrategy.
Na visão do executivo, esse comportamento demonstra uma demanda por acesso a ativos globais e por formas alternativas de exposição ao dólar e aos mercados internacionais.
Mas isso não significa que a tokenização de ativos locais tenha pouca relevância.
Ayala afirma que as duas dinâmicas podem coexistir. Para ele, a América Latina possui características que favorecem a tokenização de ativos reais, especialmente pela quantidade de ativos existentes em agricultura, imóveis, infraestrutura e crédito privado.
A questão central, segundo o executivo, não é escolher entre ativos estrangeiros ou domésticos.
O ponto é saber se a tokenização consegue tornar ativos antes difíceis de acessar mais eficientes, transparentes e passíveis de investimento.
Brasil pode ser um dos principais mercados dessa transformação
O Brasil aparece com destaque nessa discussão. O país reúne características que podem favorecer o avanço da tokenização. Entre elas estão o avanço regulatório, a sofisticação do setor financeiro e o tamanho dos mercados de capitais.
O mercado brasileiro também já apresenta aplicações concretas em crédito e recebíveis. A captação tokenizada no Brasil passou de R$ 1,6 bilhão no primeiro semestre de 2025 para R$ 3 bilhões no mesmo período de 2026. Quase toda essa atividade ocorreu por meio da securitização de recebíveis.
Isso levanta uma questão importante.
A tokenização está realmente criando um novo mercado ou apenas colocando estruturas financeiras existentes em uma blockchain?
Para Ayala, essa distinção é importante, mas a utilização de estruturas tradicionais não representa necessariamente uma fragilidade.
Na avaliação do executivo, aplicar a tokenização inicialmente a recebíveis e instrumentos de crédito é um primeiro passo lógico. Esses ativos já possuem estruturas jurídicas e financeiras estabelecidas.
O ganho maior aparece quando a blockchain consegue melhorar o ciclo completo do ativo.
Ayala aponta justamente esse processo como uma das principais oportunidades: emissão, verificação, custódia, liquidação, reporte e, potencialmente, negociação no mercado secundário.
Quando a garantia está no mundo físico
É nesse ponto que a custódia qualificada ganha importância. Imagine uma operação de crédito tokenizada cujo lastro seja uma safra, um rebanho ou um imóvel.
A existência do token não garante automaticamente a existência ou a propriedade desse ativo.
“A blockchain não elimina a necessidade de verificar o ativo do mundo real”, explica Ayala ao discutir o papel da custódia institucional.
Ainda são necessários processos confiáveis para estabelecer a propriedade, verificar as garantias, administrar os direitos legais e garantir que a representação digital corresponda ao ativo subjacente.
Isso cria uma ponte entre dois mundos. De um lado, existe a blockchain, com sua capacidade de registrar e movimentar ativos digitais. Do outro, existe o mundo físico, com registros de propriedade, contratos, garantias e processos jurídicos.
A custódia institucional entra justamente nessa conexão. Para Ayala, seu papel é garantir que a representação on-chain esteja conectada a um ativo do mundo real que seja juridicamente executável e passível de verificação independente.
Regulação pode acelerar a adoção institucional
A infraestrutura tecnológica também precisa caminhar junto com a regulamentação.
No Brasil, o mercado de ativos virtuais está entrando em uma fase mais estruturada, com novas regras para os prestadores de serviços do setor.
Para Ayala, essa evolução pode ser positiva para a tokenização. O executivo afirma que maior segurança regulatória é um dos pré-requisitos para que instituições financeiras aumentem a alocação de capital e construam infraestrutura de longo prazo. Portanto, regulamentação não deve ser encarada apenas como uma restrição.
Ela também pode acelerar a adoção institucional ao aumentar a confiança de bancos, gestores de ativos e outras instituições reguladas.
Para os custodiantes globais, o desafio será combinar infraestrutura internacional com requisitos regulatórios locais.
Isso envolve governança, compliance, gestão de riscos, segregação de ativos e controles operacionais.
Os provedores capazes de combinar escala global e fortes capacidades locais de compliance estarão melhor posicionados conforme o mercado brasileiro amadurecer.
O que realmente vai mostrar se a tokenização amadureceu
Existe uma tentação de medir o avanço do setor apenas pelo valor dos ativos tokenizados.
Ayala propõe olhar para outro conjunto de indicadores.
Na visão do executivo, não é particularmente significativo estabelecer apenas um número de ativos que estarão tokenizados na América Latina até dezembro de 2027. O mercado ainda evolui rapidamente e os países avançam em ritmos regulatórios diferentes.
A expectativa é que a tokenização deixe os projetos-piloto e passe a fazer parte da infraestrutura utilizada pelas instituições financeiras.
Para isso, será necessário observar participação institucional, custódia confiável, infraestrutura de liquidação e liquidez suficiente.
Esse ponto muda a forma de medir a maturidade do mercado. Um projeto pode colocar um ativo na blockchain. Isso, por si só, não cria um mercado funcional.
Para existir um mercado sustentável, investidores precisam confiar no ativo, compreender seus direitos e encontrar liquidez suficiente para negociar suas posições.
O verdadeiro teste começa fora da blockchain
A primeira etapa da tokenização foi provar que ativos financeiros poderiam ser representados on-chain.
A próxima será mais difícil. Será preciso demonstrar que essa representação digital continua válida quando encontra o mundo físico, jurídico e financeiro.
É por isso que Ayala espera uma expansão da tokenização na América Latina para setores como crédito privado, recebíveis, imóveis e ativos agrícolas.
O Brasil, segundo ele, reúne condições particularmente favoráveis para esse movimento, especialmente pela combinação entre regulação, mercado financeiro e escala econômica.
Mas a maturidade não virá simplesmente da criação de mais tokens.
Ela dependerá da capacidade de construir uma infraestrutura que conecte esses tokens aos ativos que representam.
No fim, a pergunta mais importante para a próxima fase da tokenização talvez não seja “o que pode ser tokenizado?”
Mas sim, “o que um token consegue representar de forma juridicamente válida, verificável e economicamente útil?”
Para o mercado de ativos reais, essa pode ser a diferença entre uma tecnologia interessante e uma nova infraestrutura financeira.
Entrevista com Luis Ayala, diretor para a América Latina da BitGo.


