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Vacas tokenizadas garantem crédito rural na B3

Dez vacas leiteiras com coleiras inteligentes da Cowmed garantiram CPR-F de R$ 100 mil registrada na B3. Primeira operação de gado tokenizado como garantia na bolsa.

Vacas tokenizadas garantem crédito rural na B3

Dez vacas leiteiras numa fazenda em Imbituva, no Paraná, acabam de se tornar a primeira garantia de gado registrada formalmente na B3.

A seguir:

  • Como a operação foi estruturada e quais empresas participaram
  • Por que bancos descountam gado em até 60% como garantia e como a tokenização muda isso
  • O contexto: falências no agronegócio brasileiro quase quadruplicaram em dois anos

Os animais usam coleiras inteligentes com sensores de IA, receberam identidades digitais únicas geradas em blockchain e garantiram uma operação de crédito de R$ 100 mil registrada na infraestrutura da bolsa brasileira.

O caso conecta uma crise real do agronegócio brasileiro a uma solução que, até agora, parecia ficar restrita ao vocabulário de startups de Web3.

Como a operação funcionou

A Fazenda Engenho Velho, em Imbituva (PR), usou dez vacas leiteiras avaliadas em conjunto em R$ 120 mil para garantir uma Cédula de Produto Rural Financeira (CPR-F) de R$ 100 mil junto à BMP Sociedade de Crédito Direto, empresa autorizada pelo Banco Central.

A BMP originou a CPR-F e concedeu os recursos ao produtor. A Target FIDC então adquiriu os direitos creditórios e registrou a operação na B3. A tecnologia que tornou o registro possível foi fornecida pela agtech Cowmed: cada vaca recebeu uma coleira inteligente que coleta dados de localização, saúde, atividade, ruminação e comportamento.

Esses dados são transformados em um identificador digital único, vinculado criptograficamente ao contrato de crédito.

Resultado: o financiador pode acompanhar em tempo real a existência, a localização e as condições de cada animal sem depender de inspeções presenciais. E sem precisar aplicar o desconto brutal que bancos costumam dar ao gado como garantia.

“Nós pegamos a vaca, que é um ativo real e tangível, e a transformamos em um ativo digital”, afirmou Thiago Martins, CEO da Cowmed. “Essa digitalização permite o registro formal na B3 como um título financeiro e dá ao produtor uma oportunidade vantajosa de obter financiamento, abrindo uma nova alternativa de garantia num momento de forte restrição de crédito no agronegócio.”

O problema que a tokenização resolve

Bancos rotineiramente descontam gado como garantia em até 60%. Uma vaca avaliada em R$ 20 mil no mercado pode valer apenas R$ 8 mil numa estrutura de crédito tradicional, porque o financiador não tem como rastrear de forma confiável a condição ou mesmo a existência do animal entre um relatório e outro.

Com o monitoramento, essa incerteza é eliminada“, disse Humberto Brenner, diretor da Target FIDC. “Os bancos vão exigir cada vez mais garantias reais e novas informações.”

A estrutura também inclui uma reserva de segurança: caso uma vaca morra ou deixe de atender aos critérios do contrato, o produtor pode substituí-la digitalmente e manter a relação entre o financiamento e as garantias. Isso reduz significativamente o risco de o produtor apresentar o mesmo rebanho como garantia em diferentes operações simultâneas, um problema real no mercado de crédito rural.

O contexto: crise silenciosa no agronegócio

A operação chega num momento de pressão crescente sobre os produtores rurais brasileiros. Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio chegaram a 1.990 em 2025, quase quatro vezes os 534 registrados em 2023.

Juros altos, queda nos preços das commodities e choques climáticos se combinaram numa crise de crédito que afeta especialmente produtores de leite, segmento que opera com margens historicamente apertadas.

Nesse cenário, a tokenização de rebanhos não é um experimento de laboratório. É uma resposta a um problema concreto de acesso a crédito para um segmento que representa uma fatia relevante do PIB agropecuário brasileiro.

A escala potencial

A Cowmed monitora hoje mais de 100 mil vacas em mais de 1.200 propriedades no Brasil, Estados Unidos, Canadá, Uruguai, Paraguai e Bolívia. O valor estimado do rebanho monitorado supera R$ 2 bilhões.

A empresa projeta que 20% desse rebanho, equivalente a R$ 400 milhões, poderia ser oferecido como garantia tokenizada dentro de dois anos. Quatro outros produtores brasileiros já estão sob avaliação pela Target FIDC, e as empresas estimam alcançar R$ 5 milhões em crédito por esse modelo até o fim de 2026.

O mercado brasileiro de ativos reais tokenizados (RWA) movimentou R$ 6,87 bilhões em 684 ativos emitidos até julho de 2026, segundo o RWA Monitor, impulsionado por normas da CVM e projetos-piloto.

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