Um desenvolvedor usou o Claude Code, ferramenta de programação por IA da Anthropic, para remover bloatware de sua smart TV via ADB, substituir o launcher original e transformar a interface em algo próximo ao visual do Apple TV. O processo funcionou, ficou mais rápido e livre de anúncios.
O problema: ao operar em um aparelho LG com root, o Claude executou etapas que o usuário não controlava por completo, e a TV não voltou mais. O relato viralizou e arrastou milhares de pessoas a repetir o experimento nos próprios aparelhos.
A seguir:
- Como o Claude Code conduziu cada etapa da modificação, do backup à instalação do novo launcher
- O que é o projeto Free My TV e por que atraiu 3.300 estrelas no GitHub em poucos dias
- Os riscos reais do vibe coding em hardware físico e o que diferencia uma TV Android de um ambiente de testes
O autor da experiência original habilitou as opções de desenvolvedor na TV, ativou o USB e o Network ADB debugging e abriu o Claude Code no computador. Bastou colar o prompt do projeto, informar o modelo exato do aparelho e responder um checklist rápido sobre quais aplicativos manter no dock.
A partir daí, o Claude assumiu: fez backup do sistema, removeu 25 pacotes Xiaomi pré-instalados, compilou um launcher de 83 MB para substituir o original de 192 MB e instalou tudo via ADB, verificando cada etapa com capturas de tela. O resultado visual foi elogiado pelo próprio autor como semelhante a um Apple TV, e o desempenho melhorou de forma perceptível.
O caso do aparelho LG, no entanto, mostrou o lado oposto da equação. Com root ativo, o Claude tinha acesso irrestrito a partições críticas do sistema. Sem que o usuário soubesse exatamente quais arquivos estavam sendo tocados, uma etapa do processo corrompeu o firmware e a A TV parou de funcionar.
O projeto que viralizou e o que ele faz
O desenvolvedor conhecido como Gathin publicou o repositório tv-vibehack no GitHub e relatou o que construiu: com Claude Code operando por Wi-Fi, criou uma tela inicial simplificada com apenas os aplicativos escolhidos pelo usuário.
O prompt foi colocado no repositório, ele publicou o antes e o depois nas redes e, em dois dias, milhares de pessoas reproduziram o processo em aparelhos Xiaomi, TCL, Sony, Fire TV, LG e até projetores, conforme o próprio desenvolvedor descreveu. O repositório concentra um script em Python chamado tools/tv.py, que evita o binário ADB nativo para contornar bloqueios do macOS com conexões de rede local.
O projeto Free My TV, citado como base do launcher, acumula 3.300 estrelas no GitHub. A proposta é desbloquear qualquer Android TV por ADB e entregar uma interface inspirada no tvOS, sem anúncios e sem coleta agressiva de dados. A demanda existe porque fabricantes monetizam o software das TVs com rastreamento e espaços publicitários na tela inicial, prática que se tornou padrão no segmento de displays de entrada e médio porte.
O problema que o caso expõe
O vibe coding, prática de delegar a escrita e a execução de código inteiramente a uma IA sem revisão linha por linha, funciona bem em ambientes virtuais onde um erro pode ser desfeito com um comando.
Hardware físico não tem undo. Quando o Claude Code age sobre partições de sistema em um aparelho com acesso root, ele pode excluir ou sobrescrever arquivos essenciais ao boot sem que o usuário veja o que está acontecendo. O resultado é um tijolo.
O XDA Developers publicou relato semelhante, apontando que o processo de debloat via Claude Code expõe um problema mais amplo: usuários sem conhecimento de ADB ou de arquitetura Android confiam em uma IA que não tem como saber, por exemplo, se um pacote que parece bloatware é, na prática, essencial para o funcionamento do sistema naquele modelo específico.
A diferença entre desinstalar um app de notícias da Xiaomi e remover um serviço crítico do sistema pode ser questão de um caractere no nome do pacote.
A onda de interesse em remover anúncios e rastreamento de TVs inteligentes é real e crescente, coberta por publicações como TechCrunch, The Verge e Android Authority na mesma semana.
O que o caso do aparelho LG deixa claro é que delegar execução irrestrita a um modelo de linguagem em hardware sem ponto de restauração exige, no mínimo, um backup verificável antes de qualquer comando.
O que fica para quem quer tentar
O repositório tv-vibehack lista avisos sobre comportamentos específicos do macOS: a versão recente do sistema operacional trata o binário ADB assinado pelo Google como aplicativo próprio e bloqueia silenciosamente a conexão de rede local, fazendo o adb connect retornar erro mesmo com a porta aberta. A solução do projeto é usar o script Python em vez do binário diretamente.
Para TVs sem root, o risco de dano permanente é menor: o pior cenário costuma ser a necessidade de um reset de fábrica. Em aparelhos com root ativo, qualquer automação com acesso irrestrito ao sistema pode ser irreversível. O backup feito pelo Claude antes de iniciar as modificações é o único recurso disponível, e ele só é útil se tiver sido salvo em local externo antes do processo começar.
Perguntas frequentes
Qualquer smart TV pode ser modificada com esse método?
O processo funciona em TVs que rodam Android TV e permitem habilitar o ADB nas opções de desenvolvedor. Aparelhos com sistemas proprietários, como webOS da LG em versões mais antigas ou Tizen da Samsung, têm compatibilidade limitada ou nenhuma com os scripts disponíveis no repositório.
Se algo der errado, dá para recuperar a TV?
Em aparelhos sem root, um reset de fábrica pelo menu de recuperação costuma restaurar o sistema. Em TVs com root, a corrupção de partições críticas pode inutilizar o aparelho permanentemente, como aconteceu no caso relatado. Um backup externo completo, feito antes de qualquer modificação, é a única proteção real.
O Claude Code sabe quais pacotes são seguros para remover?
O modelo opera com base no prompt e nos nomes dos pacotes listados no sistema, sem acesso ao histórico de atualizações do firmware ou à documentação interna do fabricante. Pacotes com nomes genéricos podem ser serviços críticos disfarçados, e a IA não tem como distinguir isso com certeza apenas pelo nome.


