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Rastreio de criptomoedas no Brasil: como autoridades conseguem seguir o dinheiro na blockchain

O rastreio de criptomoedas se tornou uma indústria bilionária, utilizada por governos, forças policiais, bancos e exchanges.

Representação digital do rastreio de transações com bitcoin e criptomoedas pelo governo federal

Uma das maiores crenças equivocadas do mercado de criptomoedas é a ideia de que o rastreio de transações em blockchain são impossíveis de fazer. Mas a realidade é justamente o contrário.

Hoje, o rastreio de criptomoedas se tornou uma indústria bilionária, utilizada por governos, forças policiais, bancos, exchanges e empresas especializadas em inteligência financeira. E, segundo especialistas da área, criminosos continuam usando criptomoedas muito mais por desconhecimento técnico do que por eficiência operacional.

Durante a TokenNation 2026, Luiz Souza, investigador on-chain e especialista em rastreamento de ativos digitais, explicou que a evolução das ferramentas de análise mudou completamente o cenário dos últimos anos.

“No início, o rastreio era feito basicamente por meio dos exploradores de blocos. Os investigadores precisavam seguir manualmente as transações. A partir disso, surgiram novas ferramentas capazes de mapear fluxos inteiros de movimentação financeira”, explicou.

Hoje, empresas especializadas conseguem identificar padrões de comportamento, conexões entre carteiras e movimentações suspeitas em escala global.

A blockchain deixa rastros para sempre

Ao contrário do dinheiro em espécie, toda movimentação realizada em blockchains públicas fica registrada permanentemente.

Cada transferência gera um registro que pode ser consultado por qualquer pessoa. Embora os endereços não revelem diretamente o nome do proprietário, as transações permanecem visíveis indefinidamente.

Foi justamente essa transparência que permitiu o surgimento de empresas especializadas em análise blockchain, capazes de transformar milhões de registros públicos em mapas detalhados de movimentação financeira.

Segundo Luiz Souza, a crença de que criptomoedas oferecem anonimato absoluto já não faz sentido há anos.

“Os criminosos ainda usam criptomoedas por pura ignorância. Hoje é muito mais fácil rastrear ativos digitais do que muitas formas tradicionais de movimentação financeira. Mas acredito que eles continuam usando esse meio pela facilidade para envio de remessas internacionais”, afirmou.

Como as autoridades rastreiam criptomoedas

As investigações modernas combinam diferentes camadas de informação.

Além da própria blockchain, autoridades utilizam dados fornecidos por exchanges, registros de KYC (conheça seu cliente), movimentações bancárias e ferramentas avançadas de inteligência financeira.

Na prática, o objetivo não é apenas seguir o dinheiro, mas identificar quem está por trás das carteiras.

Hoje, plataformas especializadas conseguem agrupar endereços que pertencem ao mesmo usuário, identificar conexões entre transações e apontar possíveis tentativas de ocultação patrimonial.

Mixers continuam sendo a ferramenta preferida dos golpistas

Uma das técnicas mais utilizadas para dificultar investigações continua sendo o uso dos chamados mixers.

Esses serviços misturam recursos de diversos usuários para tornar mais difícil identificar a origem dos fundos.

Durante anos, criminosos utilizaram mixers para tentar quebrar o vínculo entre uma transação e outra.

Segundo Luiz Souza, embora essas ferramentas ainda sejam usadas, a capacidade de rastreamento evoluiu significativamente.

“Os criminosos usam muitas ferramentas que misturam as transações, mas hoje as soluções de análise conseguem identificar muito melhor esses padrões”, explicou.

Isso não significa que o rastreamento seja perfeito, mas mostra como a tecnologia investigativa avançou.

O desafio das moedas focadas em privacidade

Se Bitcoin e Ethereum são blockchains abertas, existem criptomoedas criadas especificamente para aumentar a privacidade dos usuários.

Os exemplos mais conhecidos são Monero e Zcash.

Nesses casos, o cenário muda bastante. “É impossível rastrear uma transação de Monero. É completamente diferente das moedas abertas”, afirmou Souza durante o evento.

Por causa dessas características, diversas exchanges ao redor do mundo passaram a restringir ou remover moedas focadas em privacidade nos últimos anos.

O golpe mais comum continua sendo a manipulação emocional

Embora a tecnologia seja sofisticada, muitos golpes continuam explorando um elemento bastante simples: o comportamento humano.

Segundo Souza, a maioria das fraudes segue um padrão parecido.

“O modus operandi dos golpistas é criar urgência. Soluções milagrosas quase sempre vêm acompanhadas desse senso de urgência. É essencial parar, respirar e avaliar a situação antes de tomar qualquer decisão.”

Promessas de lucros garantidos, investimentos exclusivos, oportunidades que expiram em poucas horas e supostos vazamentos de informação continuam entre as estratégias mais utilizadas.

O crime organizado continua movimentando bilhões

Apesar do avanço das ferramentas de rastreamento, o uso ilícito de criptomoedas continua sendo um desafio global.

De acordo com dados da Crystal Intelligence citados durante o evento, atividades ilícitas movimentaram aproximadamente US$ 54 bilhões em 2024.

Embora esse valor represente apenas uma pequena parcela do mercado total de criptomoedas, ele demonstra que organizações criminosas continuam explorando ativos digitais para diferentes finalidades.

Ao mesmo tempo, as autoridades vêm ampliando sua capacidade de monitoramento e cooperação internacional.

O crescimento das falsas exchanges

Uma das modalidades de golpe que mais cresce atualmente envolve plataformas falsas que simulam corretoras legítimas.

Esses sites costumam oferecer aplicativos sofisticados, interfaces profissionais e promessas de rentabilidade acima da média.

Segundo Souza, existe um componente ainda mais preocupante por trás de muitos desses esquemas.

“Muitas vezes, uma vítima de tráfico humano é obrigada a aplicar golpes em pessoas no Brasil. Essas pessoas recebem metas e são ameaçadas caso não atinjam determinados resultados.”

Esse modelo ficou conhecido internacionalmente como pig butchering scam e tem sido alvo de investigações em diversos países da Ásia e da América Latina.

O futuro do rastreio cripto

Se nos primeiros anos da indústria o rastreamento dependia quase exclusivamente de exploradores de blocos e análises manuais, hoje o cenário é completamente diferente.

Inteligência artificial, análise comportamental, cruzamento de dados e cooperação internacional tornaram as investigações muito mais eficientes.

O resultado é um paradoxo interessante: embora criptomoedas tenham sido associadas ao anonimato durante muitos anos, poucas formas de movimentação financeira deixam um histórico tão permanente quanto uma blockchain pública. Para investidores legítimos, isso representa mais segurança. Para criminosos, cada vez menos espaço para se esconder.

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