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O bairro de Fortaleza que criou seu banco antes do DeFi existir

Há 28 anos, o Banco Palmas opera no Conjunto Palmeiras com moeda social digital, microcrédito e energia solar. Hoje são 20 mil contas, 3 mil comércios e R$1 milhão em circulação local.

O bairro de Fortaleza que criou seu banco antes do DeFi existir

Há 28 anos, moradores do Conjunto Palmeiras, periferia de Fortaleza com IDH de 0,12, decidiram criar um banco comunitário. Hoje são 20 mil contas digitais, 3 mil comércios, energia solar subsidiada e quase R$ 1 milhão circulando localmente por ano.

A seguir:

  • Como surgiu o Banco Palmas e por que a ideia nasceu de uma pesquisa simples sobre por que os moradores estavam saindo do bairro
  • Como funciona a moeda social Palmas na prática, incluindo a plataforma E-dinheiro que Joaquim Melo chama de “Pix interno
  • Por que esse modelo brasileiro inspirou 182 bancos comunitários no país e o que ele diz sobre inclusão financeira no debate global

Em 1997, a Associação de Moradores do Conjunto Palmeiras fez uma pesquisa no próprio bairro. A pergunta era simples: por que as pessoas estavam saindo? A resposta também era.

Quando precisavam de dinheiro para uma emergência — uma cirurgia, uma crise de saúde — vendiam suas casas e iam embora. Não havia crédito acessível. Não havia banco. Não havia como ficar.

Dessa pesquisa nasceu o Banco Palmas. Fundado em janeiro de 1998, é considerado o primeiro banco comunitário do Brasil. Hoje, a plataforma E-dinheiro, criada pela própria instituição, funciona como um “Pix interno” que movimentou quase R$ 1 milhão na economia local em 2025.

Um bairro que foi jogado para a periferia e decidiu se organizar

O Conjunto Palmeiras não chegou ali por acaso. Em 1973, a Prefeitura de Fortaleza desapropriou cerca de 1.500 famílias de suas casas na zona costeira da capital. Foram reassentadas no Conjunto Palmeiras, no sul da cidade, sem infraestrutura, sem serviços, sem conexão com o restante da cidade.

Vinte e cinco anos depois, a comunidade tomou a solução nas próprias mãos. Sem esperar banco tradicional ou política pública, a Associação de Moradores criou sua própria instituição financeira; com microcrédito, taxa de juros baixa e um objetivo declarado: manter o dinheiro circulando dentro do próprio bairro.

“O motivo de sucesso é porque existe uma extraordinária capacidade produtiva nas comunidades, nas periferias. Aqui tem quase todo tipo de produto, o que falta é oportunidade de fomentar e ter dinheiro para fomentar esses comércios locais”, explica Joaquim Melo, diretor do Palmas.

Como funciona a moeda social Palmas

A moeda Palmas é lastreada em reais. Não é especulativa, não valoriza nem desvaloriza. Funciona como meio de troca local.

O usuário abre uma conta no banco, recebe salário, paga boletos, acessa crédito para produção (comprar uma máquina de costura), crédito para moradia (até R$ 20 mil para reformas) ou crédito para consumo (comprar de um artesão da comunidade).

Para empréstimos em Palmas, não há cobrança de juros. Para empréstimos em reais, a taxa é de 1,5% a 3%, suficiente para a sustentabilidade do banco.

Cada compra feita com a moeda Palmas gera uma taxa de 2% para o comerciante, menor do que operadoras de cartão tradicionais cobram. Esse valor vai para um fundo de crédito que financia pequenos negócios do bairro.

Mais de 3 mil comércios aceitam a moeda. Mais de 20 mil pessoas têm contas digitais na plataforma.

E-dinheiro: o “Pix interno” que surgiu antes do Pix

A evolução mais recente do projeto é a plataforma E-dinheiro. Desenvolvida pela própria equipe do Banco Palmas, ela digitalizou a moeda social e permite transferências instantâneas entre contas, pagamentos em estabelecimentos credenciados e conversão de Palmas para reais a qualquer momento pelo aplicativo.

É como se fosse um Pix interno“, define Joaquim Melo. A lógica é idêntica ao Pix do Banco Central, mas restrita ao ecossistema local, com taxas menores e sem necessidade de conta em banco tradicional.

A plataforma E-dinheiro evoluiu do Palmacard físico para um sistema digital completo, com aplicativo, internet banking e cartão, fornecendo serviços financeiros majoritariamente gratuitos para a população.

Energia solar como extensão do modelo

O projeto mais recente do Banco Palmas vai além do crédito. O Palmas Solar é a primeira usina solar solidária do Ceará. Famílias de baixa renda se associam ao programa, recebem energia renovável sem precisar investir em placas, e têm redução de até 70% na conta de luz.

Moradora do bairro, Elisângela participa do programa e relata que sua conta caiu de R$ 110 para R$ 54,90. O valor economizado fica disponível para gastos no comércio local, reforçando o mesmo ciclo de circulação interna que a moeda Palmas já promove.

28 anos depois: 182 bancos e uma lei

Quando o Banco Palmas começou, sobreviveu de doações internacionais de países como França e Inglaterra. Só em 2005 o governo brasileiro passou a apoiar o projeto. Hoje o modelo inspirou 182 bancos comunitários em todo o Brasil.

A Lei 4476/2023, que regulamenta as moedas sociais no Brasil, foi aprovada na Câmara dos Deputados, resultado de décadas de luta dos bancos comunitários.

O Conjunto Palmeiras ainda tem IDH de 0,1, um dos mais baixos de Fortaleza. Mas o que a comunidade construiu ao redor disso é o oposto da lógica que esse número sugere: um sistema financeiro próprio, digital, com moeda, crédito, energia e tecnologia de pagamento, tudo desenvolvido de dentro para fora.

No debate global sobre inclusão financeira, onde blockchain, DeFi e stablecoins são frequentemente apresentados como a solução para os excluídos do sistema. o Banco Palmas existe há 28 anos como prova de que o problema nunca foi só tecnológico.

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