A empresa de análise on-chain, Glassnode, publicou nesta quarta um relatório detalhado. A Binance lidera a lista de corretoras em situação delicada, em relação a possíveis ataques quânticos.
A seguir:
- O que significa exatamente ser “operacionalmente inseguro” e por que a terminologia importa
- Quais corretoras, gestoras e governos aparecem no mapa de exposição da Glassnode
- O que pode ser feito agora para reduzir esse risco, segundo o próprio relatório
A Glassnode publicou nesta quarta-feira (20 de maio) um relatório mapeando quais entidades detentoras de Bitcoin estão mais vulneráveis a ataques de computadores quânticos.
O estudo não é um alarmismo sobre ameaça iminente. É, nas palavras da própria empresa,
“um mapa de base que mostra onde as chaves públicas do Bitcoin já estão visíveis hoje.“
Os números, contudo, são difíceis de ignorar.
Dois tipos de ataque e por que um deles já importa agora
Para entender o relatório, é preciso separar dois cenários distintos. O ataque de curto alcance ocorre no intervalo entre o envio de uma transação e sua confirmação pelos mineradores. Afeta qualquer endereço, mas é o mais difícil de executar na prática.
O ataque de longo alcance é diferente. Ele opera com tempo ilimitado e mira endereços cuja chave pública já foi exposta, seja pelo tipo de script usado (como o P2PK, formato original do Bitcoin) ou pela simples reutilização de endereços. É exatamente esse segundo tipo que o relatório da Glassnode mede.
A conclusão central do estudo é que o problema não está no design do Bitcoin em si, mas nos hábitos operacionais de quem guarda as moedas. “Esses outputs tornam-se expostos porque a chave pública já foi revelada enquanto o BTC permanece associado ao mesmo endereço“, explica o relatório.
O que os gráficos mostram sobre corretoras
O quadro nas principais exchanges é heterogêneo e, em alguns casos, preocupante.
A Coinbase apresenta apenas 5% de exposição, o que a coloca em posição relativamente confortável. A Binance, por outro lado, tem 85% de seus bitcoins em endereços de risco. Mais crítico ainda: Bitfinex, Gemini, Coincheck, Deribit, Crypto.com e bitcoin.de estão com 100% do saldo exposto.
No meio do caminho aparecem Upbit (47%), Kraken (62%), OKX (23%), Bybit (92%), Bithumb (81%) e Bitstamp (33%). A bitFlyer tem a menor exposição entre as exchanges listadas: apenas 2%.
Ao todo, a Glassnode identifica que 1,66 milhão de BTC, equivalente a 8,3% de todo o supply total, está em posse de corretoras e classificado como operacionalmente inseguro.

Gestoras e governos: EUA zerados, Robinhood em 100%
O mapa de exposição vai além das exchanges. Entre gestoras e entidades institucionais, o cenário é ainda mais contrastante.
O governo dos EUA e o governo do Reino Unido aparecem com 0% de exposição. O governo de El Salvador também zerou sua vulnerabilidade. O país dividiu seus bitcoins em 14 endereços distintos especificamente para reduzir o risco de ataques quânticos.
No lado oposto, Robinhood, Franklin Templeton e WisdomTree estão com 100% do saldo exposto. A Revolut aparece com 99%. A Grayscale está em 52%, enquanto a Fidelity e o Cash App têm apenas 2% cada.
O WBTC (wrapped Bitcoin) registra 13% de exposição. O MtGox Trustee aparece com 0% — relevante dado que ainda administra saldos significativos do processo de recuperação dos credores.
Por fim, o relatório também destaca que os ~1,1 milhão de bitcoins atribuídos a Satoshi Nakamoto e outros ~620 mil BTC da Era Satoshi estão expostos, todos via endereços P2PK. Endereços Taproot acumulam cerca de 200 mil BTC também na zona de risco.
A solução já existe e é simples
A Glassnode deixa claro que a ameaça quântica ainda não é operacional. Nenhum computador quântico existente hoje consegue executar esses ataques. Contudo, o ponto do relatório é que a janela para agir existe e algumas entidades estão desperdiçando-a.
“Para corretoras e custodiantes, a higiene de endereços, a gestão de reservas, a redução da reutilização de chaves e o planejamento de migração não são preocupações teóricas futuras“, afirma o relatório. “Elas são as alavancas práticas pelas quais a exposição visível pode diminuir.“
A solução técnica, aliás, é bem menos complexa do que o problema sugere. Para reduzir a exposição, basta transferir os saldos para novos endereços que ainda não tiveram suas chaves públicas reveladas. Nada de fork, nada de atualização de protocolo, apenas uma decisão operacional.
O que o relatório da Glassnode entrega, portanto, não é um alerta de crise. É um inventário. E cabe a cada entidade decidir o que fazer com ele.


