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NEO: Chip cerebral comercial existe, não é da Neuralink nem dos EUA

A China aprovou o NEO, primeiro BCI invasivo comercial do mundo. Neuralink ainda opera em protocolo de pesquisa. Entenda o que isso muda.

NEO: Chip cerebral comercial existe, não é da Neuralink nem dos EUA

A China saiu na frente na corrida por interfaces cérebro-computador. Em março de 2026, o país se tornou o primeiro do mundo a conceder aprovação comercial a um dispositivo invasivo de BCI (brain-computer interface, ou interface cérebro-computador), enquanto nos EUA nenhuma empresa chegou perto disso.

A seguir:

  • Como o dispositivo NEO foi aprovado na China em março de 2026 e o que ele realmente faz dentro do crânio
  • Por que a Neuralink, a mais famosa do setor, ainda opera apenas em protocolo de pesquisa, sem previsão de aprovação comercial nos EUA antes de 2028
  • As questões que reguladores de nenhum país ainda sabem responder: quem é dono dos dados que um chip cerebral coleta?

A Neuracle Technology, startup de Xangai, em parceria com pesquisadores da Universidade Tsinghua, desenvolveu o NEO. O dispositivo recebeu a aprovação da Administração Nacional de Produtos Médicos da China (NMPA) em 13 de março de 2026, conforme documentado pelo MIT Technology Review. Mas a corrida que se inicia vai além da medicina.

O que é o NEO e como ele funciona

O NEO é um dispositivo do tamanho de uma moeda. Seus oito sensores são posicionados sobre a dura-máter, a membrana protetora que envolve o cérebro. O procedimento leva 90 minutos.

O design é menos invasivo do que o da Neuralink. O N1 da empresa de Musk insere eletrodos diretamente no córtex cerebral. O NEO não penetra o tecido. Segundo Avinash Singh, pesquisador de BCI da Universidade de Tecnologia de Sydney, citado pelo MIT Technology Review, esse design “relativamente menos invasivo” foi um dos fatores que facilitaram a aprovação regulatória.

O que o dispositivo permite hoje

Os sensores captam sinais cerebrais e os traduzem em comandos digitais em tempo real. O paciente consegue controlar uma luva pneumática com o pensamento. Movimentos como pegar objetos ou segurar um copo voltam a ser possíveis.

O NEO é aprovado para pacientes entre 18 e 60 anos com paralisia nos quatro membros causada por lesão medular na região cervical, mas que ainda mantêm algum movimento nos braços. Não é um chip para digitar pensamentos ou controlar o ambiente inteiro. É tecnologia focada em reabilitação motora da mão.

O manual já testado nos carros elétricos

A aprovação do NEO não foi um acidente de calendário. Seguiu o mesmo roteiro que colocou a China na liderança global em veículos elétricos.

O 14º Plano Quinquenal já havia designado as interfaces cérebro-computador como uma das seis “indústrias do futuro” prioritárias. O 15º Plano, que cobre 2026 a 2030, reforçou essa meta com um objetivo explícito: liderança mundial em tecnologia cerebral até 2030.

Conforme o Seoul Economic Daily, o governo incluiu o NEO no sistema nacional de saúde imediatamente após a aprovação, criando a infraestrutura de reembolso antes mesmo de o primeiro dispositivo estar no mercado.

Além disso, a Neuracle conduziu 36 ensaios clínicos entre outubro de 2023 e o início de 2026. Trinta e dois deles aconteceram em poucos meses de 2025. A velocidade é produto de política industrial, não de atalhos científicos.

O que os concorrentes americanos estão fazendo

Nos EUA, o setor está ativo, bem financiado e ainda longe da aprovação comercial.

A Neuralink implantou o N1 em 21 pacientes em quatro países, todos sob protocolo de pesquisa. O primeiro paciente, Noland Arbaugh, demonstrou controle de cursor, navegação web e xadrez por pensamento.

Contudo, a empresa enfrenta um problema técnico documentado: os eletrodos se retraem do tecido cortical ao longo dos meses, degradando a qualidade do sinal. Uma segunda geração está em desenvolvimento para resolver isso. A aprovação comercial pela FDA é estimada entre 2028 e 2030.

A Synchron usa uma abordagem diferente: seu dispositivo Stentrode chega ao cérebro pela veia jugular, sem cirurgia aberta no crânio. A empresa concluiu um estudo de viabilidade e está rodando um ensaio clínico pivotal em 2026, financiado por uma rodada Série D de US$ 200 milhões. Se aprovada, seria a primeira a obter uma PMA (Aprovação de Pré-Mercado) da FDA para um BCI permanente.

A Precision Neuroscience tem uma aprovação 510(k) da FDA para uso temporário de até 30 dias. Parceira da Medtronic, atua principalmente em mapeamento cerebral intraoperatório. Nenhuma das três tem aprovação comercial.

A fronteira que a regulação ainda não alcançou

No cenário atual, o NEO trata paralisia. Mas pesquisadores do setor falam abertamente em uma segunda fase. Memória ampliada, aprendizado acelerado, comunicação direta entre cérebros. Nesse sentido, a tecnologia que começa como medicina pode se tornar aprimoramento cognitivo em poucos anos.

Portanto, as perguntas que reguladores de nenhum país sabem responder ainda persistem. Quem é dono dos dados que um implante cerebral coleta? O governo pode requisitar acesso aos sinais neurais de um cidadão? O que acontece quando a linha entre tratar uma deficiência e otimizar um cérebro saudável vira uma decisão comercial?

O marco e o que vem depois

A aprovação do NEO é um avanço real para pacientes que precisam da tecnologia agora. Para o setor, é o sinal de largada de uma disputa geopolítica em que as regras ainda estão sendo escritas.

Por fim, a China saiu primeiro. Mas o debate sobre quem define os padrões globais de segurança, privacidade e uso dessas tecnologias começa agora.

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