A seguir:
- Os ciberataques impulsionados por inteligência artificial praticamente dobraram em 2025, representando 47% de todas as ofensivas digitais registradas no segundo semestre do ano.
- O tempo médio de execução de um ciberataque caiu para apenas 29 minutos — uma redução de 65% — deixando equipes de segurança com janelas cada vez menores para reagir.
- Os ciberataques modernos já não buscam apenas derrubar sistemas: o objetivo é extrair inteligência estratégica e manter presença oculta dentro de ambientes corporativos e governamentais por semanas.
Havia um tempo em que uma invasão digital deixava rastros claros, sistemas fora do ar, alertas disparando, danos visíveis em minutos. Esse tempo ficou para trás.
O que a NTT DATA documentou no seu mais recente relatório de inteligência sobre ameaças cibernéticas, divulgado em março de 2026, é algo bem diferente: criminosos que entram, ficam e saem sem que ninguém perceba, muitas vezes por semanas.
O custo disso tudo? Uma estimativa que impressiona: US$ 10,5 trilhões por ano em impacto econômico global. Um número que, por maior que pareça, tem lastro em dados concretos coletados ao longo do segundo semestre de 2025.
Quando os ciberataques aprenderam a usar inteligência artificial
A virada mais significativa que o relatório registra não é sobre volume, é sobre método.
Em 2025, 47% dos ciberataques contaram com algum tipo de suporte de inteligência artificial, praticamente o dobro do que se observava no ano anterior. A IA, que as equipes de defesa adotaram como aliada, chegou ao outro lado da mesa.
Na prática, isso encurtou drasticamente o tempo de execução das invasões. O intervalo médio entre o primeiro acesso e a conclusão de uma violação caiu para 29 minutos, uma redução de 65%.
Para colocar em perspectiva: equipes de segurança que antes tinham uma hora para reagir agora dispõem de menos da metade desse tempo. A margem de erro encolheu junto.
Os alvos preferidos e o que os criminosos realmente buscam
Nem todos os setores sofrem da mesma forma, e o relatório da NTT DATA deixa isso claro. A administração pública concentrou a maior parte dos ataques, 3.343 ocorrências só no segundo semestre de 2025.
Na sequência aparecem educação (1.140 ataques), serviços financeiros (957), tecnologia da informação (802) e telecomunicações (614).
Mas os números isolados contam apenas parte da história. O que diferencia esses ataques é a intenção por trás de cada um.
No setor público, o objetivo raramente é derrubar um sistema, é extrair dados estratégicos de forma silenciosa, com intrusões que passam despercebidas por semanas.
Nas universidades, pesquisas sensíveis e bases de dados pessoais viram alvos prioritários. Já nas instituições financeiras, a exploração de credenciais legítimas e de serviços em nuvem mal configurados substituiu a fraude direta como caminho preferencial.
A nuvem como vetor de entrada e de invisibilidade
Um dos pontos mais preocupantes do levantamento diz respeito à infraestrutura em nuvem. Os criminosos abandonaram, em boa parte, a exploração de vulnerabilidades técnicas óbvias.
Em vez disso, passaram a se mover dentro dos ambientes corporativos usando APIs e contas de serviço legítimas que ninguém monitorava com atenção.
Essa mudança de abordagem tem uma consequência direta: fica muito mais difícil distinguir uma atividade maliciosa de uma operação normal do sistema. Ao mesmo tempo, o submundo digital se reorganizou.
Grandes fóruns clandestinos perderam protagonismo para redes menores, fechadas e mais difíceis de rastrear, o que complica o trabalho das equipes de inteligência que tentam antecipar ameaças.
O ransomware, por sua vez, atingiu um grau de sofisticação operacional que poucos especialistas esperavam tão cedo.
As campanhas atuais combinam automação inteligente, roubo cirúrgico de informações, pressão pública progressiva e destruição de reputação, tudo orquestrado com precisão.
Resiliência digital não é mais opcional
Carla Schwarzer, diretora de Cibersegurança da NTT DATA, resume bem o que o relatório aponta como caminho:
“Não basta cumprir normas regulatórias. É fundamental antecipar riscos e construir uma resiliência digital capaz de enfrentar ameaças cada vez mais sofisticadas.”
O ponto central aqui é a diferença entre estar em conformidade e estar de fato protegido.
O relatório aponta que, embora marcos regulatórios avancem e operações internacionais contra o crime cibernético ganhem escala, os agentes maliciosos se adaptam mais rápido do que as defesas evoluem.
Essa lacuna entre o que está no papel e o que acontece na prática continua aberta e cara.
O custo médio de uma violação de dados chegou a US$ 4,44 milhões globalmente, valor 9% menor que o registrado em 2024, mas ainda expressivo o suficiente para comprometer a continuidade de operações inteiras.
O que os números finalmente tornam inegável é que cibersegurança deixou de ser pauta exclusiva de TI e se tornou, definitivamente, uma questão de estratégia corporativa.


