Em fevereiro de 2026, a Coinbase afirmou que 40% do seu código era escrito com auxílio de inteligência artificial. Cinco meses depois, esse número saltou para entre 95% e 100%.
A seguir:
- Como a Coinbase estrutura o uso de IA no desenvolvimento e quais funções ainda são humanas
- O que significa ter 5 a 10 agentes de IA por engenheiro operando simultaneamente
- A projeção de 100 mil funcionários-equivalentes em IA até 2030
A revelação veio de Rob Witoff, chefe de plataforma da Coinbase, em entrevista ao CoinTelegraph, e coloca a maior exchange listada dos EUA como um dos casos mais avançados de adoção de IA em desenvolvimento de software no setor cripto.
O dado também explica, com mais clareza do que qualquer comunicado oficial, por que a empresa demitiu 700 funcionários em maio.
O número que dobrou em cinco meses
“Na prática, 100% dos nossos funcionários usam IA diariamente aqui. E quase 100% do nosso código, provavelmente entre 95% e 100%, é escrito por ou com a colaboração de profissionais de Liderança em Software”, disse Witoff.
A velocidade da mudança é o dado mais relevante. Em fevereiro, a própria empresa havia publicado que 40% do código era gerado com IA. Cinco meses depois, o número mais do que dobrou. Isso não é uma tendência gradual. É uma transformação em curso.
O salto explica o movimento de maio. Em e-mail aos funcionários, o CEO Brian Armstrong afirmou que a IA mudou “drasticamente” o ritmo de trabalho e que era necessário “retornar à velocidade e ao foco da nossa startup, com a IA como nosso pilar central”. A demissão de 700 pessoas, equivalente a 14% do quadro, foi a consequência operacional dessa mudança.
O que a IA faz e o que ainda é humano
Witoff foi preciso sobre onde a IA entra e onde não entra. Há um espectro claro na Coinbase:
- Prototipagem interna: efetivamente 100% automatizada. Agentes de IA constroem protótipos sem intervenção humana.
- Sistemas principais: ponto intermediário. IA escreve, humanos revisam e tomam decisões arquiteturais.
- Criptografia essencial: predominantemente humana. “Quando estamos escrevendo a criptografia essencial, contamos com criptógrafos líderes do setor que pesquisam e revisam meticulosamente cada linha de código”, explicou Witoff.
A distinção é estruturalmente importante. Num sistema financeiro que movimenta bilhões de dólares por dia, deixar a criptografia de segurança integralmente para agentes de IA seria um risco inaceitável.
A Coinbase está delegando o que pode ser automatizado com segurança e mantendo supervisão humana onde os erros são catastróficos.
Equipes menores, mais experientes e com mais agentes
A adoção de IA na escala descrita pela Coinbase não apenas mudou como o código é escrito. Mudou o tamanho e o perfil das equipes.
“Duas ou três pessoas agora conseguem lidar com o trabalho que antes exigia 10 ou mais”, afirmou Witoff.
A maioria dos engenheiros da Coinbase opera hoje com 5 a 10 agentes de IA simultaneamente, que coletivamente realizam o trabalho de programação de aproximadamente 1.200 funcionários.
O perfil buscado também mudou. Witoff disse que “muitas funções de desenvolvimento júnior foram afetadas” pelas demissões de maio, embora os cortes tenham se estendido a marketing, jurídico, suporte ao cliente e compliance.
O padrão é consistente com o documentado no relatório da Ramp e Revelio Labs: empresas que adotam IA de forma intensa tendem a cortar funções operacionais e juniors, enquanto mantêm e reforçam posições sênior com capacidade de “orientar os agentes na direção certa”, como Witoff descreveu.
“Para que essas equipes menores funcionem, para que as pessoas tenham a experiência e o discernimento necessários, penso muito na importância de as pessoas terem as cicatrizes de batalha para saberem como orientar os agentes na direção certa.”
A projeção de 100 mil funcionários-equivalentes até 2030
Witoff foi além do presente. Até 2030, a Coinbase poderá ter agentes de IA realizando o trabalho equivalente ao de 100.000 funcionários, afirmou ele.
Para contextualizar: a Coinbase tinha cerca de 5.000 funcionários antes das demissões de maio. A projeção implica que a empresa poderia operar com capacidade equivalente a 20 vezes seu quadro atual, com uma fração dos custos de pessoal.
Mesmo descontando o otimismo típico de quem lidera uma transformação interna, o número revela a escala de mudança que a liderança da Coinbase está antecipando. E a velocidade com que o índice de código gerado por IA saltou de 40% para 95% em cinco meses sugere que a trajetória é real, não aspiracional.
O padrão no setor cripto
A Coinbase não está sozinha. No setor cripto, Kraken, Gemini, Messari, Dune e Crypto.com cortaram equipes em 2026 citando ganhos de eficiência com IA. Jack Dorsey cortou 40% da Block em fevereiro e descreveu um modelo de empresa que “muda fundamentalmente o que significa construir e administrar uma empresa”.
O dado da Coinbase é o mais específico até agora: 95% do código escrito com IA, dentro de uma empresa de infraestrutura financeira crítica. Não é uma startup experimentando. É a maior exchange listada dos EUA operando em produção com esse nível de automação de desenvolvimento.
Para o mercado de trabalho em tecnologia e no setor cripto, a implicação é direta: a janela para funções de desenvolvimento júnior nessas empresas está fechando rápido. E a habilidade mais valiosa, como Witoff definiu, não é escrever código. É saber orientar os agentes que escrevem.


