A seguir:
- Preço do café registra alta de 16,19% em um único dia, maior valorização diária deste século.
- Atrasos na colheita brasileira, estoques reduzidos e risco de Super El Niño impulsionam a valorização da commodity.
- Preço do café supera o desempenho do Bitcoin e do ouro, tornando-se o principal destaque entre os ativos financeiros da semana.
Enquanto investidores acompanhavam os movimentos do Bitcoin e do ouro, quem observava o mercado de commodities encontrou no café o ativo de maior destaque da semana. Os contratos futuros do café arábica registraram uma valorização diária de 16,19%, o maior avanço em um único pregão neste século, impulsionados por atrasos na colheita brasileira, estoques reduzidos e preocupações climáticas relacionadas ao fenômeno El Niño.
Além do arábica, o café robusta também apresentou forte alta, avançando 8,83% no mesmo período e atingindo o maior nível dos últimos cinco meses. Com isso, o preço do café acumulou uma recuperação de aproximadamente 43% desde as mínimas registradas no início de junho, chamando a atenção de investidores que normalmente concentram suas apostas em criptomoedas ou metais preciosos.
Preço do café sobe após atraso na colheita brasileira
O principal fator por trás da forte valorização do preço do café continua sendo o cenário de oferta. O Brasil, maior produtor mundial da commodity, enfrenta um ritmo mais lento na colheita da safra 2026/27.
Segundo dados da consultoria Safras & Mercado, até o dia 1º de julho apenas 52% da colheita havia sido concluída. No mesmo período do ano passado, o índice era de 60%, enquanto a média dos últimos cinco anos alcançava 55%.
Além disso, as condições climáticas seguem aumentando a preocupação do mercado. Dados da Somar Meteorologia apontaram ausência de chuvas em Minas Gerais durante a semana encerrada em 5 de julho. O estado responde pela maior produção brasileira de café arábica.
Ao mesmo tempo, a Rural Clima alertou que as precipitações previstas para a segunda quinzena de julho podem prejudicar parte das lavouras, justamente em um período importante para o desenvolvimento da safra.
Estoques menores fortalecem a alta do preço do café
Outro elemento que impulsiona o preço do café é a redução dos estoques disponíveis nas bolsas internacionais.
Os estoques certificados de café arábica monitorados pela ICE recuaram para 366.756 sacas, o menor nível registrado em aproximadamente dois anos e três meses. Esse movimento reforça a percepção de menor oferta imediata no mercado internacional.
Além disso, a valorização do real frente ao dólar diminui o interesse de produtores brasileiros em ampliar as exportações. Segundo relatos do mercado, muitos agricultores também optam por reter parte da produção, aguardando preços ainda mais elevados antes de negociar seus lotes.
Essa combinação entre menor disponibilidade, exportações mais lentas e retenção da produção contribuiu para ampliar a pressão compradora sobre os contratos futuros.
El Niño aumenta incertezas para a próxima safra
As preocupações não se limitam apenas à atual colheita. O mercado também acompanha de perto as previsões para os próximos meses.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estima 67% de probabilidade de formação de um “Super El Niño”, fenômeno climático que poderá interferir na floração das lavouras brasileiras entre setembro e outubro.
Caso esse cenário se confirme, a produtividade da safra seguinte poderá sofrer impactos, reduzindo ainda mais a oferta futura de café e sustentando preços elevados por um período maior.
Mesmo assim, parte dos analistas mantém uma visão mais cautelosa. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) ainda projeta uma produção recorde de 71,9 milhões de sacas no Brasil, enquanto o Rabobank elevou recentemente sua estimativa de excedente para 9,5 milhões de sacas de café arábica.
Essas projeções haviam pressionado os preços nas últimas semanas. No entanto, os acontecimentos mais recentes fizeram o mercado rever parte desse cenário de excesso de oferta.
Análise técnica indica força do preço do café
Além dos fundamentos, os indicadores gráficos também reforçam o momento positivo do preço do café.
No gráfico semanal, os contratos futuros romperam um canal de baixa que limitava os preços desde outubro de 2025. O rompimento ocorreu no fim de junho e foi acompanhado por aumento no volume negociado, sinalizando maior participação dos compradores.
Após superar importantes níveis de retração de Fibonacci, o mercado passou a mirar a região entre 363 e 370 centavos de dólar por libra-peso, considerada uma das principais zonas de resistência de longo prazo.
Caso os compradores consigam romper essa faixa, o próximo objetivo técnico passa a ser a região próxima de 397 centavos, seguida pelo nível psicológico de 400 centavos por libra.
RSI aponta tendência positiva, mas alerta para possível correção
No gráfico diário, o Índice de Força Relativa (RSI) também confirma o fortalecimento da tendência de alta.
O indicador rompeu uma linha de tendência descendente que limitava os movimentos desde fevereiro de 2025 e atualmente opera próximo dos 75 pontos.
Embora esse patamar demonstre forte pressão compradora, ele também sinaliza condições de sobrecompra. Historicamente, níveis semelhantes costumam anteceder movimentos de realização de lucros e pequenas correções antes da continuidade da tendência principal.
Ainda assim, analistas observam que a estrutura permanece positiva enquanto o preço do café conseguir se manter acima da faixa entre 315 e 319 centavos por libra no fechamento diário.
Preço do café supera Bitcoin e ouro na semana
Mesmo com o Bitcoin mantendo sua relevância entre investidores e o ouro negociando próximo de máximas históricas, foi o preço do café que apresentou o desempenho mais expressivo da semana entre os principais ativos globais.
O avanço superior a 16% em apenas um dia evidencia como fatores ligados ao clima, à oferta e à logística continuam exercendo forte influência sobre o mercado de commodities. Enquanto persistirem as incertezas envolvendo a produção brasileira e os estoques internacionais, o mercado deve permanecer atento aos próximos desdobramentos, que poderão definir os rumos do preço do café nas próximas semanas.


