As stablecoins processaram em média US$ 38 bilhões por dia aos fins de semana em 2026, volume comparável à média diária de US$ 40 bilhões da Visa nos mesmos dias, segundo relatório “Stablecoins: Transformando o Cenário Financeiro” publicado pela Binance Research nesta quinta-feira (10).
A seguir:
- O que os dados do fim de semana revelam sobre stablecoins como infraestrutura de pagamento 24/7
- Por que rendimentos on-chain de 2% a 4% estão substituindo poupança bancária
- Como a Binance consolidou 57% das reservas de stablecoins entre exchanges globais
O número que mais chama atenção não é a comparação com a Visa. É o comportamento dos usuários em mercados com moedas instáveis: em economias com hiperinflação, compradores pagam até 62% acima da taxa de câmbio oficial para adquirir stablecoins. Não como especulação. Como proteção.
Volume de fim de semana: o dado que muda a narrativa
A média de US$ 38 bilhões por dia nos fins de semana equivale a 53% da média dos dias úteis (US$ 71 bilhões). Isso importa porque bancos e sistemas de pagamento tradicionais fecham ou operam com capacidade reduzida nos fins de semana. Stablecoins não fecham.
Esse é o argumento central do relatório: o diferencial competitivo das stablecoins não é o custo nem a velocidade em si, mas a disponibilidade 24 horas, 7 dias por semana, 365 dias por ano, incluindo feriados e fins de semana. Remessas internacionais, pagamentos entre empresas e proteção cambial não esperam segunda-feira.

Reserva de valor: quem está usando stablecoins para poupar
O dado mais revelador sobre comportamento do usuário é o prêmio pago em mercados com moedas instáveis. Em economias com hiperinflação, compradores pagam até 62% acima da taxa oficial para converter para stablecoins. Esse comportamento não é de trader buscando exposição cripto. É de poupador buscando dólar digital acessível.
Na base de usuários da Binance, 87% das moedas fiduciárias são negociadas com ágio ao serem convertidas em stablecoins. E 30% dos usuários atualmente alocam mais da metade de seus portfólios em stablecoins, ante 4% em 2020, sem correlação relevante com os ciclos do mercado de criptomoedas.
Esse crescimento de 4% para 30% em seis anos é o dado que melhor documenta a transição de stablecoin como ferramenta de trading para stablecoin como reserva de valor do usuário de varejo.
Rendimento on-chain vs poupança bancária
Os rendimentos em dólares disponíveis on-chain, entre 2% e 4%, superam amplamente a taxa nacional de depósitos de poupança dos EUA, de 0,38%. Stablecoins oferecem retornos mais de oito vezes superiores aos dos bancos americanos para depósitos equivalentes.
O Binance Earn distribuiu US$ 1,2 bilhão em recompensas em stablecoins desde 2022. Produtos tokenizados de títulos do Tesouro americano registraram retorno diário anualizado médio de 3,42% no segundo trimestre de 2026, próximo da taxa soberana de referência de 3,70%, sem exigir conta em corretora ou status de investidor qualificado.
Esse último ponto é o mais disruptivo para o sistema bancário: acesso a rendimentos próximos do Tesouro americano, sem intermediário, sem exigência de capital mínimo e sem horário de funcionamento.
Meio de troca: pagamentos cotidianos crescem 114%
No Binance Pay, o volume de pagamentos cresceu 114% em relação ao ano anterior entre os 21 milhões de comerciantes cadastrados. O valor médio das transações subiu de US$ 10 para US$ 18, indicando que stablecoins estão sendo usadas para compras de maior valor, não apenas micropagamentos.
Esse crescimento do ticket médio é um sinal de maturidade de adoção: usuários que inicialmente experimentam o produto em transações menores estão confiando nele para gastos maiores e mais frequentes.
Concentração de mercado: Binance detém 57% das reservas

O gráfico de reservas de stablecoins entre exchanges mostra crescimento consistente de janeiro de 2025 a maio de 2026, com a Binance dominando a maior fatia em amarelo ao longo de todo o período. O total de reservas entre exchanges cresceu para US$ 93 bilhões.
A Binance detém US$ 53 bilhões em reservas de stablecoins, superando a segunda colocada em US$ 42 bilhões. A participação de mercado da exchange subiu de 54% para 57% desde o início de 2025, mesmo com a expansão de 61% nas reservas totais do setor.
A concentração em uma única plataforma é um dado a ser monitorado. Quando 57% das reservas de stablecoins entre exchanges globais estão numa única plataforma, o risco sistêmico associado a qualquer incidente operacional nessa plataforma aumenta proporcionalmente.
O que o relatório significa para o Brasil
O Brasil é o mercado mais relevante da LATAM para esse panorama. Stablecoins já respondem por 90% das transações cripto reportadas à Receita Federal brasileira, segundo dados apresentados na audiência do PL 4308/24. O Banco Central está regulando esse mercado simultaneamente pela Resolução 580 (PSAVs), pelo debate sobre a trava de 24 horas e pelo PL 4308/24 sobre enquadramento jurídico das stablecoins.
A conclusão da Binance Research resume bem o momento:
“As stablecoins entraram no setor financeiro como uma ferramenta para a negociação de criptomoedas. Elas estão saindo como a camada sobre a qual o restante do sistema financeiro realiza suas liquidações.”
No Brasil, essa saída já está em andamento. A questão regulatória não é mais se stablecoins serão relevantes, mas quem vai controlar a infraestrutura que as sustenta.


