A emissora da maior stablecoin do mundo acumula dois fronts simultâneos: uma disputa bilionária na Justiça brasileira e recursos presos por ordem de confisco dos Estados Unidos em banco estrangeiro.
A seguir:
- Tether move ação em São Paulo para recuperar empréstimo de US$ 300 milhões concedido a holding ligada ao Banco Master
- Valor já atualizado chega a R$ 1,6 bilhão, com juros anuais de aproximadamente 13,9%
- Parte dos fundos da Tether no EQIBank foi bloqueada após mandato de confisco emitido pelos Estados Unidos
A Tether, empresa responsável pela emissora da stablecoin USDT, enfrenta simultaneamente dois problemas graves envolvendo instituições financeiras terceiras. O primeiro é uma disputa judicial aberta na Justiça de São Paulo contra o Banco Master; o segundo é o bloqueio de recursos mantidos no EQIBank, atingido por um mandato de confisco emitido pelos Estados Unidos.
Os dois episódios colocam sob escrutínio a gestão de liquidez da Tether e sua exposição a contrapartes bancárias fora do sistema financeiro tradicional, um debate que já vinha ganhando força entre analistas do setor de ativos digitais no Brasil e na América Latina.
Empréstimo de US$ 300 milhões e a ação contra o Banco Master
Conforme apurado, a Tether concedeu um empréstimo de US$ 300 milhões em março de 2025 a uma holding vinculada ao Banco Master. O valor, corrigido por juros anuais de aproximadamente 13,9%, chegou a R$ 1,6 bilhão, quantia que a empresa agora tenta recuperar pela via judicial em São Paulo.
Na ação, a Tether pede a penhora das contas do Banco Master utilizadas como fundo para pagamento de empréstimos consignados a servidores públicos. A empresa também requer que a Justiça determine a localização de outros bens da instituição que possam garantir o crédito.
O Banco Master, que passou por intervenção do Banco Central do Brasil e foi alvo de negociações para absorção por outra instituição, já estava no centro de controvérsias no mercado financeiro brasileiro antes mesmo desta disputa com a Tether.
EQIBank: fundos bloqueados por mandato americano
De forma paralela, parte dos recursos que a Tether mantinha depositados no EQIBank foi bloqueada após um mandato de confisco emitido pelos Estados Unidos. A medida deixou esses valores indisponíveis para a empresa, ampliando o cenário de pressão sobre a gestão de ativos da emissora do USDT.
O EQIBank, instituição com operações internacionais voltadas a clientes de alta renda e empresas do segmento de ativos digitais, passou a ser alvo das autoridades americanas, o que atingiu diretamente fundos de terceiros ali depositados, incluindo os da Tether.
A empresa com sede na República Dominicana mencionada no contexto da operação é a Capstone, apontada como parte envolvida nas circunstâncias que levaram ao confisco.
O bloqueio reforça um risco sistêmico que críticos do setor há muito apontam: grandes emissoras de stablecoins dependem de redes de bancos correspondentes e instituições de menor porte, muitas vezes em jurisdições com supervisão regulatória menos robusta, para custodiar parte das reservas que lastreiam seus tokens.
Dupla exposição e impacto para o mercado
A combinação dos dois episódios levanta perguntas sobre a política de diversificação de reservas da Tether. A empresa historicamente tem sido questionada sobre a composição e a transparência dos ativos que garantem o USDT, a stablecoin com maior volume de negociação diária no mundo.
No cenário brasileiro, a ação contra o Banco Master adiciona um capítulo incomum à crise da instituição: agora, além de reguladores e credores locais, uma das maiores empresas do ecossistema cripto global figura entre os credores que buscam recuperar recursos pela via judicial.
Para o mercado de criptoativos no Brasil e na América Latina, os dois casos funcionam como alerta sobre due diligence em operações de crédito e custódia envolvendo stablecoins. Reguladores como o Banco Central do Brasil e a CVM têm ampliado a supervisão sobre empresas cripto com exposição a bancos em dificuldades, e episódios como estes tendem a acelerar esse movimento regulatório.
A Tether não divulgou comunicado oficial detalhando sua posição sobre nenhum dos dois casos até o momento desta publicação.


