Pela primeira vez, uma das maiores emissoras de stablecoin do mundo busca na Justiça brasileira a recuperação de um crédito bilionário concedido a um banco tradicional.
A seguir:
- A Tether emprestou US$ 300 milhões ao Banco Master via Titan Holding em março de 2025, com contrato que previa cláusulas de vencimento antecipado em caso de deterioração financeira.
- O rebaixamento pela Fitch e a liquidação do Banco Master acionaram as cláusulas protetivas, elevando a dívida total para R$ 1,6 bilhão com juros e encargos.
- A Tether pede bloqueio de ativos ligados à carteira de crédito consignado do grupo Master e reforça que os recursos não vieram das reservas do USDT.
A Tether, gigante global das stablecoins, entrou com uma ação judicial em São Paulo para recuperar cerca de R$ 1,6 bilhão referentes a um empréstimo concedido ao conglomerado do Banco Master.
O caso envolve a Titan Holding, empresa ligada a Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição financeira liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025.
Trata-se de um dos desdobramentos mais expressivos da crise que derrubou o grupo Master e que, agora, respinga diretamente no universo das criptomoedas.
Tether emprestou US$ 300 milhões à Titan Holding do Banco Master
Em março de 2025, a Tether formalizou um contrato de empréstimo no valor de US$ 300 milhões com a Titan Holding, holding controlada por Vorcaro e vinculada ao Banco Master.
Os recursos chegaram em duas parcelas: a primeira, em 28 de março, mesma data em que o Banco de Brasília (BRB) anunciou publicamente a intenção de adquirir o banco — operação que o Banco Central vetou meses depois.
A segunda transferência ocorreu poucos dias após a inicial. O contrato estabelecia prazo de até 12 meses para a devolução dos valores, com incidência de juros.
Além disso, o documento incluía cláusulas de proteção que permitiam à Tether cobrar antecipadamente a dívida diante de deterioração financeira do Banco Master. Esse mecanismo, comum em contratos de alto risco, acabou sendo acionado antes do prazo original.
Rebaixamento do Banco Master ativou cláusula de proteção da Tether
A primeira cláusula de proteção da Tether entrou em vigor em setembro de 2025, quando a Fitch Ratings rebaixou a nota de crédito do Banco Master. Naquele momento, o mercado já sinalizava preocupação com o futuro da instituição e com o andamento da possível venda ao BRB.
A mudança no rating ativou automaticamente o vencimento antecipado previsto no contrato, o que fez a Tether notificar formalmente os devedores.
No entanto, a situação piorou consideravelmente em novembro, quando o Banco Central determinou a liquidação do Banco Master.
A medida acionou uma segunda cláusula de proteção contratual, elevando o valor total devido — com juros e encargos — para aproximadamente R$ 1,6 bilhão. Diante da recusa do banco em pagar a dívida, a Tether recorreu ao Judiciário paulista para tentar recuperar os recursos.
Tether pede bloqueio de ativos ligados ao Banco Master
Na ação, a Tether aponta como réus Luiz Antônio Bull e Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, ex-parceiros de Vorcaro e diretores da Titan Holding.
A Master Holding Financeira e a Master Participações também aparecem como devedoras solidárias no processo.
Embora Vorcaro seja o rosto mais conhecido do conglomerado, o processo não o cita diretamente como réu — o que não diminui a gravidade das acusações que ele já enfrenta em outras frentes.
Como garantia do empréstimo original, o Banco Master ofereceu parte da receita gerada pela carteira de crédito consignado, incluindo o Credcesta, linha de crédito voltada a aposentados e servidores públicos.
Caso houvesse inadimplência, a Tether teria direito de acessar diretamente esses fluxos financeiros. Agora, a empresa pede à Justiça o bloqueio de valores vinculados a essas carteiras e a outros ativos financeiros dos projetos envolvidos.
Emissora do USDT nega ligação das reservas da stablecoin com Banco Master
Em nota enviada ao Estadão, reproduzida nos autos do processo, a Tether afirma ter concedido o empréstimo de boa-fé e sustenta que, no momento da operação, não havia sinais públicos das irregularidades posteriormente associadas ao grupo Master.
A empresa também esclarece que os recursos utilizados vieram da Tether Investments, braço de investimentos do grupo, sem qualquer ligação com as reservas que lastreiam o USDT — a maior stablecoin do mundo.
Vale lembrar que Daniel Vorcaro acumula sérios problemas jurídicos. A Polícia Federal o investiga por suspeita de gestão fraudulenta do Banco Master, inclusive pela venda de R$ 12,2 bilhões em títulos problemáticos ao BRB.
Ele foi preso em novembro de 2025 e novamente em março de 2026, desta vez sob suspeita de planejar atos violentos contra opositores. O empresário permanece detido em Brasília enquanto as investigações avançam.
O caso evidencia os riscos que empresas do setor de criptomoedas assumem ao operar com instituições financeiras tradicionais em dificuldades.


