A rival Ledger Donjon usou injeção de falha a laser para comprometer um chip da carteira Safe 7 em condições de laboratório. A Trezor divulgou o bug antes de qualquer exploit público. Usuários não precisam fazer nada.
A seguir:
- Como o ataque funciona na prática, e por que exige laboratório, equipamento caro e acesso físico ao dispositivo
- A arquitetura de três camadas que impede que uma falha num chip comprometa fundos ou PIN
- O detalhe que o comunicado oficial não destaca: a Tropic Square encontrou uma segunda vulnerabilidade além da da Ledger
No mesmo setor onde rivais costumam se atacar publicamente, a Trezor fez o movimento contrário: publicou ela mesma a vulnerabilidade que a Ledger encontrou no seu produto mais novo.
A Trezor e a fabricante do chip Tropic Square divulgaram em conjunto uma falha no TROPIC01, o secure element open-source que equipa o Trezor Safe 7, lançado em outubro de 2025. A descoberta veio da Ledger Donjon, equipe de pesquisa de segurança da rival Ledger, que a própria Tropic Square contratou para auditar o chip.
Matej Žák, CEO da Trezor, resumiu a posição da empresa:
“Como a Trezor Safe 7 foi construída com múltiplas camadas de segurança independentes, uma vulnerabilidade no TROPIC01 não coloca os fundos dos usuários em risco.”
O que a Ledger Donjon fez, exatamente
A Tropic Square forneceu o chip TROPIC01 à Ledger Donjon para testes. A equipe de pesquisa descobriu que um ataque de injeção de falha a laser, realizado em condições de laboratório, pode extrair certos segredos armazenados no chip e contornar a verificação de assinatura de firmware.
O método específico é descrito no relatório técnico da Ledger Donjon: um laser calibrado de 1064 nm é usado para injetar falhas no processo de verificação de assinatura Ed25519 durante updates de firmware e na inicialização do dispositivo. O resultado é execução arbitrária de firmware dentro do chip.
Contudo, o que o chip guarda é diferente do que protege o usuário. O TROPIC01 inclui um bloco de hardware chamado MAC-and-Destroy, que funciona como um cofre: dado o input correto de 32 bytes, ele libera um segredo correspondente de 32 bytes.
No Trezor Safe 7, esse mecanismo sustenta a verificação do PIN. O número de tentativas é limitado em hardware, ultrapassado esse limite, o segredo não pode mais ser recuperado.
Na prática: o ataque pode revelar um dos três “segredos” que protegem o PIN do usuário, reduzindo as três camadas originais de proteção para duas. Não elimina a segurança, reduz a margem.
Por que o ataque não acessa fundos
A Safe 7 foi projetada com três chips independentes: o TROPIC01, o OPTIGA Trust M e o STM32U5. Cada chip protege uma função diferente, verificação de PIN, autenticidade do dispositivo e criação da carteira. O design garante que uma falha em qualquer um deles não abra acesso a tudo o que o dispositivo protege.
As chaves que dão acesso aos fundos e ao backup da carteira não estão armazenadas no TROPIC01. A Trezor construiu o dispositivo justamente para evitar ponto único de falha.
Além disso, o ataque exige: acesso físico ao dispositivo, desmontagem, decapsulação do chip e uso de equipamento de laboratório especializado, o processo leva cerca de uma hora em condições controladas. Não é viável para criminosos comuns.
O detalhe que o comunicado oficial suaviza
Após revisar os achados da Ledger Donjon, engenheiros da Tropic Square identificaram um método adicional de exploração além do que a Ledger havia encontrado, um segundo caminho de ataque que poderia comprometer outro segredo ligado às funções de PIN do chip.
A empresa notificou seus parceiros e optou pela divulgação pública, mas está retendo os detalhes técnicos até que uma revisão de silício endurecida do TROPIC01 esteja disponível, prevista para o final de 2026. A publicação completa está prevista para a primavera de 2027.
Uma mitigação via firmware já está disponível: desabilitar o modo MAINTENANCE no chip fecha o principal ponto de entrada do ataque e força uma exploração mais complexa em múltiplos passos.
O padrão da indústria e o que isso diz sobre segurança em hardware aberto
Essa divulgação continua um padrão da Ledger Donjon de identificar falhas de hardware em dispositivos rivais e vice-versa. Em março de 2025, a Trezor divulgou uma vulnerabilidade em seu modelo Safe 3 após pesquisadores da Ledger a identificarem, descrevendo o problema também como majoritariamente teórico e exigindo acesso físico.
O TROPIC01 foi desenvolvido como o primeiro secure element totalmente aberto e auditável, com código-fonte e documentação públicos no GitHub. Essa abertura é exatamente o que permitiu a auditoria independente e a descoberta transparente da falha antes de qualquer exploração conhecida.
A Trezor encerra seu comunicado com uma frase que resume bem a lógica: a maior ameaça externa para usuários de carteiras hardware continua sendo phishing, erros no backup da seed phrase e engenharia social, não ataques físicos sofisticados em laboratório.
Usuários da Safe 7 não precisam tomar nenhuma ação.


