Para a maioria das pessoas que opera em cripto, USDT e USDC fazem a mesma coisa: equivalem a um dólar, servem para proteger patrimônio em períodos de volatilidade e funcionam como moeda de troca entre ativos. Na prática do dia a dia, são intercambiáveis.
Mas quando o assunto é regulação, transparência e segurança das reservas, as diferenças são relevantes. E em 2026, com o mercado regulatório se definindo nos EUA e na Europa, essas diferenças passaram a ter consequências concretas.
A seguir:
- O que é cada uma e quem emite
- As diferenças reais em reservas, transparência e regulação
- Qual escolher, e quando a escolha realmente importa
O que são e quem emite
Ambas são stablecoins centralizadas atreladas ao dólar americano na proporção de 1:1. Isso significa que para cada token em circulação, o emissor deve ter um dólar em reservas.
O USDT é emitido pela Tether, empresa privada que operava nas Ilhas Virgens Britânicas e transferiu sua entidade operacional principal para El Salvador em janeiro de 2025. O CEO é Paolo Ardoino.
O USDT circula em mais de 15 blockchains, com a maior parte do volume concentrada em Tron e Ethereum. Foi lançado em 2014 e é a maior stablecoin do mundo desde então.
O USDC é emitido pela Circle, empresa americana com sede em Nova York, liderada pelo CEO Jeremy Allaire.
A Circle abriu capital na Bolsa de Nova York em junho de 2025, sob o ticker CRCL, tornando-se a primeira grande emissora de stablecoin a ser uma empresa listada. O USDC foi lançado em 2018 através de uma joint venture entre Circle e Coinbase. Desde 2023, a Circle é a única emissora.
Tamanho e participação de mercado
Em julho de 2026, o USDT tinha aproximadamente US$ 184 bilhões em circulação, correspondendo a cerca de 60% do mercado total de stablecoins. O USDC ficava em torno de US$ 73 bilhões, ou aproximadamente 24% do mercado.
Juntas, respondem por mais de 80% do mercado global de stablecoins.
As reservas: o que lastreia cada token
USDT
O relatório trimestral da Tether para o Q1 2026 apontou reservas totais avaliadas em aproximadamente US$ 191,8 bilhões. Cerca de US$ 141 bilhões estão em títulos de curto prazo do Tesouro americano (T-bills) e operações compromissadas, colocando a Tether entre os maiores detentores privados de dívida americana no mundo.
O restante está distribuído entre ouro físico, Bitcoin, empréstimos garantidos e outros investimentos. A diversificação com ativos como BTC e ouro é o que diferencia a composição das reservas da Tether em relação à Circle.
USDC
As reservas do USDC ficam no Circle Reserve Fund, um fundo de mercado monetário gerido pela BlackRock, além de depósitos em caixa em bancos parceiros. A composição é mais conservadora: basicamente T-bills de curtíssimo prazo, operações de recompra overnight e caixa. Mais simples, menos rendimento, menos risco de composição.
Transparência: a principal diferença
Aqui está onde as duas divergem de forma mais clara.
A Circle publica atestações mensais feitas pela Deloitte e apresenta demonstrações financeiras auditadas à SEC, por ser uma empresa de capital aberto. Qualquer pessoa pode acessar os relatórios.
A Tether publica atestações trimestrais. Atestação significa que um contador confirmou que, numa data específica, as reservas reportadas correspondiam ao volume de tokens em circulação. Não cobre o período inteiro entre uma atestação e outra.
A Tether nunca realizou uma auditoria completa. No início de 2026, a empresa contratou uma das Big Four, relatada como sendo a KPMG, para conduzir sua primeira auditoria independente completa. O resultado ainda não foi divulgado até julho de 2026.
O histórico regulatório adiciona contexto. Em 2021, a CFTC multou a Tether em US$ 41 milhões por ter afirmado que o USDT era totalmente lastreado em dólares entre 2016 e 2019, quando em alguns períodos não era. A Procuradoria-Geral de Nova York encerrou um caso separado com multa de US$ 18,5 milhões no mesmo ano.
Regulação: o impacto do GENIUS Act e do MiCA
Em 2026, o ambiente regulatório mudou de forma concreta para as duas stablecoins.
O GENIUS Act americano, sancionado em 2025, restringiu a emissão de payment stablecoins a empresas domiciliadas nos EUA. A Tether, sediada em El Salvador, não se qualificou. Em resposta, lançou o USAT em janeiro de 2026, uma stablecoin separada emitida pelo Anchorage Digital Bank com custódia da Cantor Fitzgerald, voltada exclusivamente ao mercado americano.
O MiCA europeu também excluiu o USDT de conformidade. Exchanges como Binance, Kraken e Coinbase removeram ou restringiram o USDT para usuários europeus.
O USDC passou pelos dois filtros. A Circle foi a primeira emissora global a se adequar ao MiCA em 2024. Em julho de 2026, recebeu aprovação para operar como banco fiduciário nacional nos EUA, sob o nome Circle National Trust, colocando a custódia do USDC sob supervisão federal americana.
Segurança: os dois momentos que testaram a paridade
Nenhuma das duas stablecoins já perdeu permanentemente a paridade com o dólar. Mas ambas já passaram por momentos de stress.
O pior momento do USDC foi em março de 2023, quando o Silicon Valley Bank colapsou com US$ 3,3 bilhões das reservas da Circle (cerca de 8% do total na época). O USDC chegou a negociar perto de US$ 0,87 no fim de semana do colapso, antes de um programa federal garantir os depósitos do SVB e a Circle reabrir resgates. A paridade voltou em dias.
O pior momento do USDT foi em maio de 2022, quando o colapso do TerraUSD gerou pânico no mercado. O USDT chegou a negociar próximo de US$ 0,95 antes de se recuperar em horas.
Em ambos os casos, a paridade foi restaurada. Mas os dois episódios mostram que mesmo as stablecoins mais sólidas podem ter momentos de descolamento em condições extremas de mercado.
Receita: como cada emissora ganha dinheiro
O modelo de negócio é basicamente o mesmo para as duas: guardar reservas em T-bills, receber os juros e não repassar nada ao detentor do token.
A Tether gerou aproximadamente US$ 1 bilhão em lucro líquido apenas no Q1 2026. Com reservas de US$ 191 bilhões rendendo yield de Tesouro americano, o resultado é previsível e expressivo.
A Circle tem receita similar, mas uma estrutura de custos bem diferente. No Q1 2026, os custos de distribuição chegaram a quase 60% da receita total. A Coinbase, como principal parceira de distribuição, fica com uma fatia significativa dos juros gerados pelas reservas. É o preço de ter construído a maior parte da adoção do USDC via parceiro.
Qual escolher
Para a maioria dos usuários, a escolha é irrelevante. USDT e USDC valem um dólar, são fáceis de trocar entre si e estão disponíveis em praticamente qualquer exchange.
A escolha começa a importar em contextos específicos. Para quem opera dentro da regulação americana ou europeia, ou trabalha com instituições que exigem conformidade regulatória clara, o USDC tem vantagem objetiva. Para quem prioriza liquidez global, acesso em mercados emergentes e volume de negociação, o USDT ainda lidera com folga.
No mercado brasileiro, os dados da Receita Federal mostram que o USDT responde por cerca de 90% do volume de stablecoins reportado. A penetração do USDC no Brasil é muito menor, reflexo da liderança global do USDT em mercados emergentes onde o acesso ao sistema bancário americano é mais limitado.


