A seguir:
- A Amazon pressiona funcionários a usarem inteligência artificial mesmo quando isso piora a qualidade do trabalho e aumenta o retrabalho
- Gerentes monitoram a adoção de IA por dashboards, transformando inteligência artificial em ferramenta de vigilância corporativa
- A empresa demitiu 30 mil funcionários enquanto anuncia investimentos bilionários em inteligência artificial, levantando dúvidas sobre a relação entre automação e cortes de emprego
Funcionários da Amazon relatam que a empresa exige o uso intensivo de inteligência artificial no trabalho diário, mesmo quando isso gera retrabalho, vigilância e piora na qualidade das entregas. O cenário levanta questões urgentes sobre os limites da automação corporativa.
Amazon força uso de IA e prejudica produtividade
A Amazon transformou o uso de inteligência artificial em obrigação para seus funcionários corporativos.
Desenvolvedores, engenheiros e analistas de dados relatam que a empresa pressiona suas equipes a adotarem ferramentas de IA em praticamente todas as tarefas, independentemente de a tecnologia ser adequada para aquele contexto.
O resultado, segundo esses trabalhadores, é justamente o oposto do prometido: queda de produtividade, código cheio de erros e mais horas de trabalho para corrigir o que a IA quebrou.
Dina, desenvolvedora de software em Nova York, descreveu sua rotina atual como “tentar sair com IA de um problema que a própria IA criou”.
A ferramenta interna chamada Kiro gera código com frequência falha, obrigando os engenheiros a revisarem tudo ou descartarem o trabalho e recomeçarem do zero. Pouco após conceder a entrevista ao The Guardian, Dina foi demitida.
Ferramentas de inteligência artificial “mal acabadas” aumentam a carga de trabalho
Lisa, engenheira de supply chain com mais de dez anos de casa, afirma que as ferramentas de inteligência artificial funcionam de forma satisfatória em apenas um a cada três usos.
Mesmo nesses casos, ela ainda precisa consultar colegas para verificar os resultados, o que consome mais tempo do que simplesmente fazer a tarefa sem IA.
Para ela, o problema não está na tecnologia em si, mas na lógica da empresa de impor o uso independentemente do contexto.
“Você não olha para o problema e pergunta ‘como uso esse martelo que tenho?’”, explicou. “Você pergunta se aquele problema precisa de um martelo.”
Denny, engenheiro de software na área de varejo da Amazon, relata que a empresa passou a organizar hackathons trimestrais quase exclusivamente voltados à geração de ferramentas de IA para produtividade.
O problema é que muitas dessas ferramentas chegam às equipes sem estarem prontas, e os funcionários ainda precisam responder pesquisas avaliando cada uma delas — o que, paradoxalmente, aumenta ainda mais a carga de trabalho.
A inteligência artificial na Amazon virou ferramenta de vigilância corporativa
Além da pressão por produtividade, os funcionários relatam uma mudança preocupante: a inteligência artificial passou a servir como instrumento de vigilância.
O sistema interno Amazon Connections, que antes fazia perguntas sobre bem-estar e clima organizacional, agora questiona diariamente se o funcionário usa IA, com que frequência e se se considera um “usuário avançado”.
Gerentes têm acesso a dashboards que monitoram o nível de adoção de ferramentas de IA por cada membro da equipe.
Jack, desenvolvedor com mais de dez anos na empresa, afirmou que alguns gestores estabelecem metas formais, como exigir que ao menos 80% da equipe use IA semanalmente.
Sarah, outra engenheira, disse que seu principal engenheiro verifica esse painel diariamente e pressiona o time a aumentar o uso das ferramentas.
Nick Srnicek, autor de Capitalismo de Plataforma e pesquisador do King’s College London, avalia que esse cenário era previsível. “A implantação apressada da IA significa uma expansão acrítica da vigilância”, afirmou.
Para ele, quanto mais as ferramentas de IA exigem conhecimento detalhado dos fluxos de trabalho individuais, mais controle a gestão passa a ter sobre cada etapa do dia a dia dos trabalhadores.
Demissões em massa e a matemática não dita da inteligência artificial
Nos últimos quatro meses, a Amazon demitiu cerca de 30 mil funcionários corporativos, quase 10% do quadro.
Ao mesmo tempo, a empresa anunciou investimentos de US$ 200 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial para 2025 e um aporte de US$ 50 bilhões na OpenAI.
Para Maria, ex-gerente de produto demitida em janeiro, a equação é direta: “Se você diz que automatizou duas horas do trabalho de alguém, precisa converter isso em economia com aquele cargo. Essa é a matemática não dita do que estão fazendo.”
A pressão, portanto, não vem apenas das ferramentas. Ela vem do topo. Em e-mail enviado a todos os funcionários no ano passado, o CEO Andy Jassy previu que os ganhos de produtividade com IA levariam à redução do quadro corporativo e pediu explicitamente que os funcionários abraçassem a tecnologia.
A mensagem implícita, segundo Jack, foi clara: quem não se adaptar, pode ser o próximo a sair.
Especialistas alertam que forçar a adoção de tecnologia raramente funciona. Ifeoma Ajunwa, diretora do Programa de IA e Futuro do Trabalho da Universidade Emory, explica que, em geral, os funcionários estão em melhor posição do que a gestão para avaliar quais ferramentas realmente aumentam a produtividade.
Ignorar esse conhecimento prático não acelera a inovação, apenas gera ruído, erros e desengajamento.


