A seguir:
- A Meta anunciou o corte de 8 mil funcionários e o cancelamento de 6 mil vagas abertas, redirecionando recursos para investimentos de até US$ 135 bilhões em inteligência artificial em 2026
- A Microsoft lançou seu primeiro programa de aposentadoria voluntária em 51 anos, afetando 7% da força de trabalho americana, enquanto planeja gastar até US$ 120 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial
- O setor de tecnologia já acumula mais de 73 mil demissões em 2026, com empresas como Oracle, Amazon e Block também citando ganhos com inteligência artificial como justificativa para os cortes
A maior onda de demissões em tecnologia nos últimos anos está em curso e o motivo é sempre o mesmo: inteligência artificial.
Na quinta-feira, 23 de abril, Meta e Microsoft anunciaram cortes significativos em suas equipes, ao mesmo tempo em que injetam centenas de bilhões de dólares em infraestrutura de IA.
A coincidência não é acidental. Ela revela uma estratégia deliberada: substituir mão de obra humana por sistemas automatizados, enquanto o setor ainda tenta entender as consequências disso.
Meta elimina 8 mil vagas para financiar expansão em inteligência artificial
A Meta comunicou aos funcionários que vai demitir cerca de 8 mil pessoas, aproximadamente 10% de seu quadro global, a partir de 20 de maio. Além disso, a empresa cancelou 6 mil vagas abertas que planejava preencher, o que eleva o impacto real para 14 mil posições eliminadas.
Segundo informações internas, novos cortes ainda estão previstos para o segundo semestre de 2026. Se o segundo ciclo repetir a escala do primeiro, a Meta terá eliminado cerca de 20% de seus funcionários em relação ao início do ano.
O anúncio partiu de Janelle Gale, diretora de recursos humanos da empresa, que justificou os cortes como parte de um esforço de eficiência para “compensar os outros investimentos que estamos fazendo”.
Esses investimentos chegam a até US$ 135 bilhões em 2026, quase o dobro do que a empresa gastou no ano anterior, com foco quase exclusivo em infraestrutura de inteligência artificial. Entre os projetos em andamento estão o supercluster Prometheus, de um gigawatt no estado de Ohio, e a instalação Hyperion, de US$ 10 bilhões na Louisiana.
Mark Zuckerberg já havia sido mais direto em janeiro: “Estamos começando a ver projetos que antes exigiam grandes equipes sendo realizados por uma única pessoa muito talentosa.”
Para o CEO, a inteligência artificial está tornando uma parte das contratações simplesmente desnecessária.
A vigilância que acompanha as demissões
Paralelamente aos cortes, a Meta anunciou internamente um programa chamado “Model Capability Initiative”, que instala softwares nos computadores corporativos dos funcionários para capturar teclas digitadas, movimentos de mouse e capturas de tela. O objetivo declarado é treinar agentes de inteligência artificial.
O diretor de tecnologia Andrew Bosworth comunicou que “não há opção de desativar isso no seu laptop fornecido pela empresa”.
A contradição é evidente: os funcionários que permanecem empregados estão sendo usados para treinar os sistemas que, em algum momento, devem substituí-los.
Pesquisadores da Universidade Cornell já levantaram questões sobre consentimento e compensação pelo uso desse comportamento como dado de treinamento.
Internamente, ferramentas como MyClaw e Second Brain já estão redesenhando a forma como os próprios colaboradores interagem com os sistemas da Meta.
Microsoft segue o mesmo caminho com programa de aposentadoria voluntária
No mesmo dia, a Microsoft anunciou seu primeiro programa de aposentadoria voluntária em 51 anos, oferecendo pacotes de saída para cerca de 7% de sua força de trabalho americana, mais de 8 mil funcionários qualificados.
O critério adotado é a soma da idade com os anos de empresa, exigindo um total igual ou superior a 70 pontos.
A empresa projeta gastos entre US$ 110 bilhões e US$ 120 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial no próximo ano fiscal.
Satya Nadella, CEO da Microsoft, afirmou que a IA já responde por até 30% de todo o trabalho de programação interno da companhia.
Mustafa Suleyman, diretor de IA da Microsoft, foi ainda mais incisivo ao declarar, em fevereiro, que acredita que a inteligência artificial poderá substituir a maior parte do trabalho de colarinho branco nos próximos 12 a 18 meses.
Demissões em tech batem recorde em 2026
O movimento de Meta e Microsoft não está isolado. O setor de tecnologia já registrou mais de 73 mil demissões em 95 empresas apenas nos primeiros quatro meses de 2026. A Oracle eliminou entre 20 mil e 30 mil funcionários em março.
A Block, de Jack Dorsey, cortou quase metade de seu quadro no mesmo período. A Amazon, que anunciou US$ 200 bilhões em investimentos em um único ano, demitiu ao menos 30 mil trabalhadores nos últimos seis meses.
Em todos os casos, o discurso corporativo repete o mesmo argumento: a inteligência artificial aumenta a produtividade e justifica a redução de equipes.
O que os internos não respondem e nenhuma empresa respondeu ainda, é o que essas dezenas de milhares de profissionais devem fazer a seguir. A tecnologia avança. A conta, por enquanto, quem paga são os trabalhadores.


