O Bitcoin deixou de ser tratado como ativo puramente especulativo por uma parcela crescente do mercado institucional global. Em outubro de 2025, os ETFs de Bitcoin acumularam US$ 263 bilhões em patrimônio sob gestão.
A seguir:
- O que está mudando na percepção de risco em torno de Bitcoin e ouro
- Como ETFs listados na B3 aproximaram esses ativos do varejo brasileiro
- A combinação entre os dois ativos como estratégia de carteira
Uma pesquisa da Coinbase em parceria com a EY-Parthenon revelou que 73% dos investidores institucionais planejam aumentar alocações em ativos digitais até o fim de 2026.
O ouro acompanhou o movimento. O relatório Gold Demand Trends Full Year 2025 do World Gold Council apontou que a demanda global pelo metal atingiu US$ 555 bilhões em 2025, com US$ 89 bilhões em entradas via ETFs.
Ambos os ativos estão sendo incorporados a carteiras mais amplas de alocação, num contexto de juros elevados, tensões geopolíticas e busca por diversificação descorrelacionada dos mercados tradicionais.
A mudança de percepção
O que está acontecendo não é apenas crescimento de preço. É uma mudança de enquadramento. Bitcoin e ouro estão sendo posicionados em carteiras institucionais e de varejo não apenas como apostas de retorno, mas como instrumentos com funções específicas dentro de uma estratégia de alocação.
“O investidor deixou de enxergar o Bitcoin apenas como um ativo especulativo. Hoje, existe uma busca por estruturas que conciliam exposição a crescimento, proteção e geração de fluxo de caixa”, afirma Renato Nobile, CEO e CIO da Buena Vista Capital.
A pesquisa da Coinbase com a EY-Parthenon confirma esse movimento no lado institucional: com 73% dos gestores planejando aumentar alocações em ativos digitais até o fim do ano, a questão deixou de ser “se” e passou a ser “como” e “quanto”.
ETFs como canal de acesso estruturado
O veículo que tornou esse movimento possível em escala foi o ETF. No mercado americano, os fundos de Bitcoin criaram um canal regulado de entrada de capital institucional sem precedentes. No Brasil, o crescimento da indústria de ETFs listados na B3 replicou parte dessa dinâmica para o mercado local.
O patrimônio sob gestão via ETFs no Brasil saltou de R$ 54 bilhões para R$ 91 bilhões ao longo de 2025. O número de fundos de índice listados cresceu 70% entre janeiro de 2025 e março de 2026. Nesse contexto, ETFs ligados a cripto, ouro, commodities e estratégias de renda passaram a compor uma prateleira antes inexistente para o investidor de varejo brasileiro.
A combinação Bitcoin + ouro como estratégia
Uma das tendências que gestores identificam no atual momento é a combinação de Bitcoin e ouro dentro da mesma carteira como alternativa de diversificação em cenários de instabilidade econômica.
Os dois ativos têm características distintas. O ouro tem histórico de 5.000 anos como reserva de valor, demanda de bancos centrais como seguro geopolítico e menor volatilidade. O Bitcoin tem oferta limitada a 21 milhões de unidades, portabilidade sem fronteiras e retorno anualizado de +42% em USD desde 2014, segundo o estudo de 55 anos da BeInCrypto Research. A desvantagem do Bitcoin é a volatilidade: três quedas de 75% ou mais em 12 anos.
“O ouro e o Bitcoin possuem características distintas, mas ambos são vistos por parte do mercado como ativos de escassez. A combinação entre eles surge como uma tentativa de equilibrar proteção e potencial de valorização dentro da carteira”, completa Nobile.
A lógica de combinar os dois não é nova no mercado global. O que mudou no Brasil é o acesso: com ETFs de ouro e de Bitcoin disponíveis na B3, qualquer investidor de varejo pode implementar essa combinação sem precisar de conta internacional, custodiante especializado ou estrutura sofisticada.
A transformação estrutural em curso
O movimento reflete uma mudança mais ampla no perfil de alocação do investidor brasileiro. A evolução regulatória, com o arcabouço do BCB para PSAVs e as novas regras da CVM para tokenização, o crescimento da indústria de ETFs e a ampliação do acesso via corretoras estão aproximando investidores de segmentos antes restritos a estratégias sofisticadas.
O resultado é uma transformação gradual: instrumentos que combinam diversificação internacional, exposição a tecnologias financeiras emergentes e alternativas de geração de renda passam a fazer parte do vocabulário do investidor brasileiro comum, não apenas do institucional.


