A seguir:
- O Bitcoin se tornou o principal meio de pagamento para empresas iranianas que enfrentam sanções e bloqueio ao SWIFT, com transações chegando à Rússia, Turquia e América do Norte.
- A mineração de Bitcoin no Irã explodiu devido ao custo baixo de energia, mas sobrecarregou a rede elétrica — com equipamentos instalados até em mesquitas e escolas.
- Tensões militares no Estreito de Ormuz em maio de 2026 derrubaram o petróleo e relançaram o Bitcoin acima de US$ 80 mil, expondo a ligação entre geopolítica e o mercado cripto.
O Irã enfrenta um dos ambientes econômicos mais restritivos do mundo. Sanções internacionais, bloqueio ao sistema SWIFT e a ausência de redes como Visa e Mastercard criaram um vácuo no sistema financeiro do país, e o Bitcoin preencheu boa parte desse espaço. Não como especulação. Como ferramenta de sobrevivência.
Esse cenário ganhou ainda mais peso em maio de 2026, quando tensões militares voltaram a dominar o noticiário global e pressionaram tanto os mercados de petróleo quanto os de criptoativos.
Bitcoin vira infraestrutura financeira no Irã sancionado
Quando os canais tradicionais fecham, os informais abrem. É exatamente isso que aconteceu no Irã ao longo dos últimos anos.
Segundo Ebrahim Mello, especialista em Irã e Oriente Médio e membro do Conselho Empresarial do Consórcio BRICS+, hoje é difícil imaginar o comércio doméstico ou externo iraniano sem o uso de criptomoedas.
A lógica é direta. Muitos iranianos converteram Riais de contas bancárias locais em cripto para enviar recursos ao exterior.
As transferências alcançam a Rússia, Turquia, países árabes e até a América do Norte, tudo via carteiras digitais.
Restaurantes de alto padrão em Teerã chegaram a aceitar pagamentos em cripto. Quadros de câmbio passaram a exibir o preço do Bitcoin ao lado de outras moedas.
Esse movimento não surgiu do nada. As sanções, combinadas com a falta de acesso a sistemas globais de pagamento, empurraram empresas e cidadãos em direção aos ativos digitais como única alternativa funcional.
Mineração de Bitcoin invadiu fábricas, escolas e mesquitas
O custo baixo da energia elétrica no Irã, sustentado pelas reservas de petróleo e gás do país, transformou a mineração de Bitcoin em um negócio acessível.
Mello estima que minerar um Bitcoin no país pode custar entre US$ 1.000 e US$ 1.500, valor muito abaixo da média global. Esse diferencial criou um incentivo poderoso.
O resultado foi uma corrida de mineração sem precedentes. Equipamentos apareceram em fábricas, escolas, mesquitas e imóveis residenciais. Por um período, praticamente todo mundo no Irã tentava minerar.
O fenômeno cresceu rápido demais, e trouxe consequências sérias para a rede elétrica nacional.
O governo tentou controlar a mineração ilegal, mas a fiscalização se mostrou ineficiente diante da escala do problema.
Os apagões que o país enfrentou têm relação direta com o consumo excessivo das operações de mineração, muitas delas ligadas a estruturas vinculadas aos Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC).
Ironicamente, ataques militares em 2026 que atingiram parte dessas operações resultaram em queda temporária na demanda por energia, e até excedente elétrico em algumas regiões.
Tensões no estreito de Ormuz movimentam petróleo e Bitcoin
Em 4 de maio de 2026, o Irã afirmou ter lançado mísseis contra um navio da Marinha americana próximo ao Estreito de Ormuz.
Washington negou o ataque direto, classificando as ações como tiros de advertência. Mesmo assim, o impacto nos mercados foi imediato.
O petróleo tipo Brent disparou e chegou a US$ 120 por barril. O Bitcoin, por sua vez, voltou a superar os US$ 80.000. Os dois ativos reagiram simultaneamente, o que reforça como o contexto geopolítico do Irã hoje influencia tanto o mercado de commodities quanto o de criptomoedas.
Em paralelo, os Estados Unidos lançaram a operação “Project Freedom”, uma iniciativa naval para garantir a passagem de embarcações pelo estreito com destróieres, aeronaves, drones e cerca de 15 mil militares mobilizados.
Bitcoin resolve o pagamento, mas não resolve o negócio
Apesar da utilidade evidente, o Bitcoin não resolve todos os problemas do comércio iraniano.
Mello explica que muitas empresas do país ainda dependem de apertos de mão, pagamentos em espécie, faturas pro forma e transferências por carteira. Esse modelo funciona em alguns mercados — mas cria fricção em outros.
Na Rússia, por exemplo, contratos formais, regras de rotulagem, certificações e trilhas bancárias documentadas são requisitos reais de negócio.
A informalidade cripto não substitui estrutura legal, conhecimento de mercado ou reputação construída ao longo do tempo.
O Bitcoin ajuda o Irã a mover dinheiro quando os sistemas formais estão bloqueados. Mas mover dinheiro é apenas uma parte do comércio. Confiança, conformidade e contratos são a outra, e nenhuma blockchain resolve isso sozinha.


