A seguir:
- O que comerciantes de uma ilha turística vão aprender sobre stablecoins
- Por que o tema chega a Boipeba num momento regulatório sensível
- Quem vai sustentar o laboratório depois de outubro?
A Ilha de Boipeba, em Cairu (BA), recebe em outubro o Ilha Tech, um ciclo de seis encontros presenciais sobre economia digital. A programação inclui carteiras digitais, Web3 e stablecoins (criptomoedas atreladas a uma moeda fiduciária, como o dólar).
A iniciativa é do Instituto Vivá, em parceria com o Delas On, segundo comunicado divulgado nesta quarta-feira (7). O público são os pequenos comerciantes de uma economia movida a turismo, aprendendo sobre ativos dolarizados num mercado recém-regulado pelo Banco Central.
O que o curso de Web3 vai ensinar em Boipeba
Dos seis encontros, quatro são voltados a mulheres, um a jovens e um a comerciantes e empreendedores locais. A programação parte do zero: foi desenhada para quem não tem conhecimento prévio em tecnologia.
A trilha feminina conecta identidade digital, carteiras, pagamentos e empreendedorismo. Além disso, apresenta conceitos de Web3 a partir de usos possíveis nos negócios da comunidade.
Já o encontro com comerciantes aborda QR Codes, segurança, taxas e conversão de valores, as stablecoins entram nessa sessão. Segundo os organizadores, o conteúdo é educativo e não recomenda produtos financeiros específicos.
“Queremos que a tecnologia não seja algo que simplesmente chegue de fora da ilha. A
proposta é criar condições para que os próprios moradores possam aprender,
experimentar, criar, desenvolver projetos e, no futuro, transformar esse conhecimento
em novas oportunidades profissionais e empreendedoras”, afirma Luciana Sousa,
responsável pela iniciativa.
Por que stablecoins fazem sentido numa ilha turística
Boipeba integra o arquipélago de Cairu, que soma 17.761 habitantes, segundo o Censo 2022. Em 2023, a comunidade de Boipeba foi certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares. Os dados do IBGE citados na mesma reportagem mostram renda média de 1,7 salário mínimo e apenas 18,1% de pessoas ocupadas no município, em 2021.
Nesse cenário, o comerciante que atende turista estrangeiro lida com conversão de moeda todos os dias. Por isso, o tema não é abstrato.
Ainda assim, o contexto regulatório mudou. Desde 2 de fevereiro de 2026, a compra, venda e troca de ativos referenciados em moeda fiduciária são tratadas como operações de câmbio, conforme as Resoluções 519, 520 e 521 do Banco Central. Na prática, quem intermedeia essas operações precisa de autorização do BC, processo que já começou a andar, como no caso da Onda Finance, primeira empresa cripto em análise formal.
Ou seja, ensinar stablecoin a comerciante é, também, ensinar onde estão as taxas e os intermediários regulados. O precedente mais próximo no Nordeste é o Banco Palmas, que opera moeda social digital em Fortaleza há 28 anos.
O teste real começa depois de outubro
O mês marca o primeiro ciclo do Vivá Tech Lab. A proposta é uma estrutura permanente com computadores, internet, cursos e mentorias, incluindo formações em programação e inteligência artificial.
Só que a estrutura ainda não está financiada. O projeto busca empresas e instituições dispostas a contribuir com equipamentos, conectividade, bolsas e infraestrutura.
A ilha também vive sob pressão. A Agência Pública mostrou que o MPF pediu, em 2025, a anulação da licença de um grande empreendimento imobiliário em Boipeba. Dessa forma, a discussão sobre quem controla a “transformação digital” ganha peso local.


