Entre janeiro e junho de 2026, foram registrados 52 wrench attacks verificados em todo o mundo, crescimento de 33,3% em relação aos 39 casos do mesmo período de 2025. O dado mais alarmante não é o número de incidentes, mas o valor envolvido: a exposição financeira saltou de US$ 10,5 milhões para US$ 124,2 milhões, alta de 1.079% em um ano.
A seguir:
- O que são wrench attacks e como estão evoluindo em sofisticação
- Por que a França concentrou 63% dos casos globais
- O que a convergência entre risco digital e físico significa para empresas e investidores de cripto
Os números fazem parte do estudo CertiK Intel3D Wrench Attacks H1 2026, que analisa ataques em que criminosos utilizam violência, intimidação, sequestros ou ameaças para obrigar vítimas a transferir criptoativos, desbloquear wallets ou entregar credenciais de acesso.
O que são wrench attacks
O termo remete à ferramenta mais simples possível. Enquanto hackers exploram vulnerabilidades em código, os wrench attackers exploram vulnerabilidades humanas: ameaças físicas, sequestros e invasões domiciliares para forçar transferências de cripto.
O modelo é brutalmente direto. A vítima é identificada, abordada e coagida a transferir ativos, revelar seeds ou desbloquear wallets sob pressão física. Diferente de hacks, que podem ser revertidos ou rastreados em tempo hábil, transferências feitas sob coerção são frequentemente irreversíveis e difíceis de provar judicialmente.
O que mudou em 2026 é a escala e a inteligência por trás dos ataques. A exposição média por incidente saltou de aproximadamente US$ 270 mil para US$ 2,39 milhões, indicando que os criminosos estão selecionando alvos com maior patrimônio e planejando as operações com mais cuidado.
A Europa no centro e a França como epicentro
A Europa concentrou 75% dos incidentes, com 39 dos 52 casos registrados no semestre. Dentro da Europa, a França foi o país mais afetado: 33 ocorrências, tornando-se o principal foco de wrench attacks no mundo.
O relatório da CertiK aponta que a França abriga um ecossistema de criptomoedas amplo e visível, com exchanges, fundadores, investidores, prestadores de serviços e eventos frequentes do setor.
A visibilidade pública combinada com uma série de vazamentos de dados de organizações privadas e públicas criou um ambiente propício: criminosos com acesso a dados de clientes de exchanges ou carteiras sabem onde procurar vítimas.
As invasões domiciliares se consolidaram como o principal vetor de ataque, passando de apenas um caso no H1 2025 para 20 ocorrências no H1 2026.
No Brasil, o movimento foi inverso: de cinco incidentes no H1 2025 para um no H1 2026, único caso registrado em toda a América do Sul no período. O sequestro do influenciador em Ribeirão Preto em julho de 2026, que resultou em roubo de R$ 750 mil em cripto após criminosos se passarem por policiais, não foi computado neste relatório por ocorrer fora do período analisado.
A convergência entre risco digital e físico
O dado mais relevante do estudo não é a quantidade de ataques. É o método por trás deles.
Os wrench attacks de 2026 não começam com uma marreta. Começam com pesquisa. Criminosos usam vazamentos de dados, redes sociais, registros públicos, informações de clientes de exchanges, atividade on-chain e outras fontes para identificar vítimas de alto patrimônio antes de qualquer abordagem física.
“Observamos uma convergência entre riscos digitais e físicos. Isso exige que empresas tratem segurança de infraestrutura, governança de acessos e proteção de dados como partes de uma mesma estratégia”, disse Jason Jiang, Chief Business Officer da CertiK.
Na prática, isso significa que um vazamento de dados de uma exchange não é apenas um problema de privacidade. É um mapa para criminosos identificarem quem tem patrimônio em cripto, onde mora e qual o volume aproximado de seus ativos.
“Empresas devem combinar auditorias de código, proteção de infraestrutura, governança de acessos, monitoramento de riscos e políticas de proteção de dados para reduzir oportunidades que podem ser exploradas tanto no ambiente digital quanto fora dele”, completou Jiang.
O que investidores e executivos de cripto devem fazer
A CertiK lista práticas que reduzem exposição tanto digital quanto física: limitar a visibilidade pública do patrimônio em cripto, usar carteiras com configurações de segurança em múltiplas camadas, não revelar volumes de ativos em eventos públicos ou redes sociais, e garantir que dados pessoais não estejam expostos em registros públicos associados a holdings cripto.
Para empresas do ecossistema, a recomendação vai além da segurança técnica. Proteger os dados de clientes e colaboradores, incluindo endereços físicos e informações de acesso privilegiado, é agora parte da gestão de risco operacional, não apenas de conformidade regulatória.


