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China quer levar IA de código aberto ao BRICS e o Brasil está no meio da jogada

Na Cúpula do BRICS em Nova Délhi, Xi Jinping propôs que a China lidere uma comunidade de IA de código aberto, dias antes de se reunir com Trump.

China quer levar IA de código aberto ao BRICS e o Brasil está no meio da jogada

A seguir:

  • Xi Jinping propôs que a China lidere uma comunidade de IA de código aberto dentro do BRICS, dias antes de se reunir com Trump
  • O bloco já soma dez países plenos, e o Brasil está no centro da disputa entre os modelos de governança de IA da China e do Ocidente
  • Em julho, o Brasil já havia assinado outro acordo liderado por Pequim sobre IA, o que essa nova proposta muda agora?

A 18ª Cúpula do BRICS aconteceu em Nova Délhi entre 12 e 13 de setembro de 2026. Nela, o presidente chinês Xi Jinping propôs que a China lidere uma comunidade de inteligência artificial (IA) de código aberto no bloco. Segundo o Global Times, veículo estatal chinês, Xi disse que o país vai “encorajar o desenvolvimento de código aberto, abertura, cooperação e compartilhamento” em IA.

O anúncio chega dias antes de Xi visitar os Estados Unidos para negociar com Donald Trump, o que reforça o caráter estratégico da proposta. Para o Brasil, que integra o BRICS desde sua fundação, a oferta chinesa não é um caso isolado: em julho, o país já havia assinado a criação da WAICO, organização de governança de IA liderada por Pequim.

O que a China propôs ao BRICS

De acordo com o discurso de Xi na cúpula, também repercutido pela Euronews, a proposta chinesa tem três frentes:

  • apoio à cooperação no desenvolvimento e uso de grandes modelos de linguagem (LLMs) entre os países-membros
  • realização de seminários e cursos de treinamento técnico em IA para o bloco
  • construção de um “ecossistema aberto” de inteligência artificial dentro do BRICS

A declaração final do encontro, a Declaração de Nova Délhi, também endossou a cooperação em infraestrutura digital pública, computação quântica e redes de pesquisa. O texto ainda acena para a criação de uma rede de incubadoras do BRICS.

Um bloco de dez países, com a Arábia Saudita à parte

O BRICS soma hoje dez países plenos: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia. Esta última, a mais recente, ingressou ao bloco em janeiro de 2025.

A Arábia Saudita segue como convidada, sem confirmar adesão plena ao bloco.

Governança made in China: o precedente da WAICO

A proposta no BRICS não é o primeiro movimento chinês para atrair o Brasil a uma estrutura própria de governança de IA. Em julho, o Brasil assinou, ao lado de outros 29 países, a criação da WAICO, a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial. A entidade tem sede em Xangai.

A entidade, liderada pela China, diz ter como objetivo “promover a cooperação internacional e a governança global em inteligência artificial“. A proposta feita agora no BRICS caminha na mesma direção, mas com foco mais técnico: modelos, treinamento e infraestrutura compartilhada, em vez de um organismo diplomático.

Por que isso importa para o Brasil

Soberania digital: menos dependência das Big Techs americanas

Acesso a modelos de IA de código aberto pode reduzir a dependência brasileira de plataformas americanas como OpenAI, Google e Meta. O Brasil já tem iniciativa própria nessa frente: o governo Lula lançou, em setembro, um plano nacional de IA de R$ 23 bilhões até 2028.

Mas o país caminha, ao mesmo tempo, em duas direções regulatórias diferentes. De um lado, avança o PL 2.338/2023, inspirado no modelo europeu de classificação de risco. Do outro, o Brasil já aderiu à WAICO, de governança mais flexível e liderança chinesa. A proposta de Xi no BRICS aprofunda essa segunda frente.

América Latina como campo de teste para modelos em português

A América Latina, historicamente importadora de tecnologia, poderia usar modelos abertos para desenvolver aplicações adaptadas ao português e ao espanhol. O Brasil já é apontado como um dos países mais bem posicionados nessa disputa.

A vantagem está principalmente nas camadas de aplicação e distribuição da cadeia de IA. Ali, a barreira de entrada é menor do que na construção de infraestrutura e modelos-base.

Riscos e o que ainda falta esclarecer

Código aberto não é sinônimo de neutro

Modelos treinados na China carregam escolhas de dados, valores embutidos e possíveis restrições de uso que precisam ser auditadas. O mesmo argumento, porém, vale para modelos americanos amplamente adotados sem escrutínio equivalente. O debate sobre governança de IA é, portanto, bilateral, não uma disputa entre um lado “aberto” e outro “fechado”.

Há também a dimensão de segurança cibernética. Governos e especialistas em defesa tendem a avaliar com cautela qualquer tecnologia estatal estrangeira integrada a infraestruturas críticas, seja ela chinesa ou americana.

O que ainda não foi confirmado

Até a publicação desta reportagem, nem o discurso de Xi nem a Declaração de Nova Délhi detalharam prazos ou orçamento para a iniciativa. Também não há mecanismo de governança definido para a comunidade de IA do BRICS.

O movimento da China no BRICS sinaliza uma tendência mais ampla. A disputa por influência tecnológica global está migrando do hardware para o software e os modelos de IA.

Para o Brasil, isso significa dois acordos de IA com Pequim em apenas dois meses: a WAICO, em julho, e agora esta proposta no BRICS. Navegar esse cenário com autonomia vai exigir capacidade técnica própria. Também exigirá clareza sobre quais dependências o país está disposto a aceitar, e de quem.

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