Kenneth Rogoff, professor de Harvard e ex-FMI, publicou análise sobre o que a corrida da IA significa para o mundo fora do Vale do Silício. O diagnóstico é duro para África e América Latina, e não poupa os EUA.
A seguir:
- Por que a euforia da IA em San Francisco convive com ansiedade real sobre o que vem depois
- O problema específico da América Latina: baixa poupança, histórico de crises de dívida e dependência de commodities
- O que acontece quando o desemprego gerado por IA chega em países sem capacidade de financiar renda básica
Kenneth Rogoff não é pessimista por natureza. Como ex-economista-chefe do FMI e professor de economia em Harvard, ele passou décadas analisando crises. Quando ele publica um texto com o título “A subclasse permanente da economia de IA”, vale prestar atenção.
O artigo, publicado em 2 de junho no Project Syndicate, parte de uma observação simples: a IA está transformando a economia global enquanto amplia a distância entre vencedores e perdedores tecnológicos.
Governos que não conseguirem garantir um lugar na cadeia de fornecimento de IA podem enfrentar deslocamento em massa de empregos sem a receita fiscal ou a capacidade estatal necessária para conter o impacto social e político.
A ansiedade por baixo da euforia
Rogoff abre o texto descrevendo o Vale do Silício de 2026 como uma corrida do ouro, mas com uma tensão específica. Por baixo da frenesi existe uma ansiedade palpável: membros dessa jovem superelite temem que suas startups não sejam as vencedoras da corrida da IA. Fracasso, nos seus olhos, significa ficar para trás enquanto a IA automatiza grandes fatias do trabalho de colarinho branco, especialmente vagas de programação, que até agora eram uma licença para imprimir dinheiro, e cair nas fileiras dos pobres permanentes.
Esse medo interno da elite tech americana é revelador. Se até quem está dentro do epicentro da corrida sente incerteza existencial, o que espera quem está fora?
O problema específico da América Latina
Para o Brasil e a região, o diagnóstico de Rogoff é cirúrgico. Como os países latino-americanos podem financiar investimentos massivos em datacenters quando as taxas de poupança permanecem baixas e um histórico de crises de dívida recorrentes continua a afastar capital estrangeiro?
A saída via minerais não resolve o problema estrutural. Chile, Peru e México têm cobre, lítio e terras raras que a IA consome em escala industrial. Mas Rogoff é direto sobre o limite dessa vantagem: a riqueza em recursos naturais frequentemente se provou tão maldição quanto bênção.
Países ricos em minerais podem se encontrar com receitas impulsionadas pela IA e ainda assim carecer das instituições políticas e econômicas necessárias para distribuir os ganhos pela sociedade.
A equação que não fecha para países emergentes
O argumento central de Rogoff sobre os países em desenvolvimento é sobre aritmética fiscal. Países que falham em se posicionar na economia de IA emergente correm o risco de ficar no lado perdedor da transformação econômica mais consequente deste século. Sem lucros inesperados para redistribuir e sem aumento de receita tributária para financiar renda básica universal, podem se encontrar sem capacidade de amortecer o choque do deslocamento em massa de empregos.
É um problema duplo: a IA elimina empregos e, ao mesmo tempo, concentra a arrecadação fiscal nos países onde os lucros são gerados. Para um governo que precisa financiar políticas de transição, requalificação, renda básica, serviços sociais, a conta não fecha.
Índia, China e o caso que não se resolve fácil
A Índia merece atenção separada na análise. O país tem talento técnico profundo, mas enfrenta um risco específico: sua vasta indústria de outsourcing de trabalho de colarinho branco é exatamente o tipo de trabalho que a IA está comendo primeiro.
Rogoff observa que a repressão à imigração de Trump pode diminuir a fuga de cérebros para a Califórnia, mas se isso beneficia a Índia no longo prazo ainda é uma pergunta aberta.
Já a China é descrita como uma potência de IA consolidada, mas com seus próprios problemas. Mesmo vencendo a corrida tecnológica, manter a estabilidade social diante do desemprego gerado por IA pode exigir expansão significativa da rede de proteção social.
O que isso significa para o debate sobre IA e trabalho
O texto de Rogoff não é anti-IA. É um alerta sobre distribuição. A IA ameaça ampliar o abismo entre vencedores e perdedores tecnológicos, permitindo que países ricos colham as recompensas enquanto condena bilhões de pessoas no mundo em desenvolvimento a ficar cada vez mais para trás. Ninguém sabe ao certo como seria esse mundo, muito menos como evitar que ele se autodestrua.
Para o Brasil, que lidera o otimismo global com criptomoedas e aposta em tokenização como vetor de inclusão financeira, o argumento de Rogoff aponta para uma questão mais ampla: tecnologia não distribui benefícios por inércia. Ela distribui para quem está posicionado para receber.


