A seguir:
- O Apostômetro FECAP 2026 apontou que 46,3% dos jovens paulistas realizaram apostas esportivas digitais no primeiro trimestre do ano, com índice consolidado de risco elevado de 64,2 pontos.
- O estudo revelou que 8,9% contraíram dívidas ligadas a apostas esportivas digitais e 19,7% tentaram recuperar perdas imediatamente, sinal claro de comportamento compulsivo.
- Jovens entre 18 e 24 anos com renda instável formam o grupo mais vulnerável às apostas esportivas digitais, segundo os pesquisadores da FECAP.
Em apenas três meses, 46,3% dos jovens do Estado de São Paulo fizeram ao menos uma aposta em plataformas digitais de apostas esportivas.
O número vem de um estudo da FECAP, a Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado, e não deixa margem para relativização: o hábito das bets já faz parte do cotidiano de uma geração inteira, com consequências que chegam às dívidas, à saúde mental e até ao desempenho no trabalho e na faculdade.
Apostas esportivas digitais dominam o dia a dia de jovens paulistas
O levantamento Apostômetro FECAP 2026 foi feito com 1.200 jovens entrevistados entre janeiro e março deste ano, e os dados pintam um cenário de risco.
O índice consolidado da pesquisa chegou a 64,2 pontos numa escala de 0 a 100, território classificado como risco elevado. Não é uma zona cinzenta. É um alerta direto.
Entre os entrevistados, 29,8% apostaram no mês anterior à pesquisa. Já 17,6% apostam toda semana, frequência que, por si só, já sinaliza repetição sistemática.
O que complica ainda mais o quadro é onde esse dinheiro sai: 12,1% usaram recursos destinados a contas e despesas básicas para bancar apostas esportivas digitais. Comida, aluguel, transporte. Tudo pode entrar na equação quando o ciclo começa a fugir do controle.
Dívidas e comportamento compulsivo: o que os números escondem
Tem um dado no Apostômetro que merece atenção. Dos jovens entrevistados, 19,7% disseram que, após uma perda, tentaram recuperar o prejuízo imediatamente.
Isso tem nome técnico: chasing losses. E é um dos marcadores mais reconhecidos de comportamento compulsivo no universo das apostas.
O professor Ahmed Sameer El Khatib, doutor em Finanças e coordenador da pesquisa, não poupa palavras. Segundo ele, o problema não está só no risco financeiro, está na arquitetura das próprias plataformas.
“A aposta deixa de ser entretenimento e passa a operar como um mecanismo emocional de recompensa e fuga”, afirma El Khatib.
O design das bets, na visão do pesquisador, estimula repetição e permanência de forma deliberada.
As dívidas aparecem como consequência direta. 8,9% dos jovens contraíram dívidas ligadas às apostas esportivas digitais, um percentual que, aplicado à população jovem paulista, representa um contingente expressivo de pessoas com desequilíbrio financeiro real e persistente. Outros 15,4% perderam mais do que haviam planejado em um ciclo de apostas.
Apostas esportivas digitais afetam muito mais que o bolso
O estudo avaliou cinco dimensões de impacto: frequência, comprometimento financeiro, comportamento compulsivo, impacto emocional e impacto social.
Nos dados emocionais, 24,2% dos jovens relataram ansiedade, culpa ou irritação depois de perdas. Outros 21,8% mencionaram sentimentos negativos recorrentes diretamente ligados ao hábito de apostar.
Mas o impacto vai além do estado de espírito. 10,6% afirmaram ter sofrido prejuízo acadêmico ou profissional por causa das apostas, aulas perdidas, prazos descumpridos, rendimento comprometido.
Isso significa que as bets já interferem na trajetória de vida de uma parcela significativa dos jovens entrevistados.
“Há uma dinâmica muito perigosa: o jovem acredita que conhecimento esportivo garante lucro, acha que a próxima aposta vai compensar a anterior e minimiza perdas pequenas que se repetem”, explica El Khatib.
Esse ciclo, segundo o pesquisador, se retroalimenta até que o controle escapa completamente.
Quem está mais exposto às apostas esportivas digitais
O perfil de maior risco identificado pelo Apostômetro é específico: jovens entre 18 e 24 anos, renda instável, alta exposição digital e pressão financeira recente.
A combinação cria um terreno fértil para decisões impulsivas e para o apelo de ganhos rápidos que as plataformas vendem com insistência.
O estudo aponta alguns caminhos como solução, sendo eles educação financeira e probabilística nas escolas, suporte psicológico acessível e regulação mais rígida da publicidade das bets, com transparência real sobre perdas médias, que aparecem como medidas prioritárias.
A pesquisa foi desenhada para se tornar um indicador periódico, permitindo comparações futuras por região, faixa etária e perfil socioeconômico.
“Aposta digital não vende só chance de lucro. Ela vende emoção, esperança imediata e sensação de controle”, conclui Ahmed El Khatib.
Quando esse apelo encontra instabilidade financeira e impulsividade juvenil, o risco escala rápido — e os dados de 2026 mostram que esse processo já está em curso.


