Facções criminosas no Brasil, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho, têm ampliado e sofisticado suas estratégias de lavagem de dinheiro, usando a tecnologia como principal aliada.
Aproveitando o avanço das tecnologias financeiras e a falta de regulação eficiente em setores emergentes, grupos ligados ao narcotráfico têm usado criptomoedas, fintechs e até apostas online para ocultação de patrimônio no Brasil.
Essa é a principal conclusão de um estudo divulgado nesta semana pelo Instituto Esfera de Estudos e Inovação, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Segundo o relatório, o Estado brasileiro ainda não possui a estrutura adequada para acompanhar o ritmo dessas inovações, o que compromete o combate ao crime organizado.
O documento destaca que o principal órgão de inteligência financeira do país, o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), tem operado sob forte pressão. Para se ter um ideia, entre 2015 e 2024, houve aumento de 766,6% nas comunicações de operações suspeitas. Além de 335,9% na produção de relatórios de inteligência financeira.
Contudo, apesar da alta demanda, o Coaf conta hoje com apenas 93 servidores. Um número significativamente menor do que o de instituições similares em países como os Estados Unidos (300 funcionários) e França (230).
A ausência de uma carreira própria e a dependência de servidores cedidos dificultam a especialização e resultam em alta rotatividade.
Como as facções lavam dinheiro nas novas fronteiras digitais
O relatório detalha três frentes principais de atuação das facções criminosas:
- Fintechs: A demora do governo federal para regular o setor permitiu, até 2021, que diversas empresas operassem sem autorização do Banco Central. Isso facilitou o uso dessas plataformas para disfarçar movimentações financeiras.
- Bets: As plataformas de apostas online funcionam como canais alternativos de escoamento e legalização de recursos, dificultando o rastreamento das transações por parte das autoridades.
- Criptoativos: Utilizados para ocultação de patrimônio e transferências internacionais anônimas e ágeis, os criptoativos se tornaram ferramentas estratégicas para grupos que buscam fugir da vigilância bancária tradicional.
Soluções propostas para o fortalecimento do Coaf
O estudo propõe cinco medidas estruturais para dar mais efetividade ao Coaf e frear a atuação financeira do crime organizado:
- Criação de uma carreira própria com servidores concursados, especializados e permanentes;
- Ampliação do acesso a bases de dados e obrigatoriedade de comunicação de ilícitos por órgãos como o Ministério Público;
- Investimento em infraestrutura tecnológica, como o uso de inteligência artificial e soluções como o sistema GoAML da ONU;
- Expansão da regulação para setores de alto risco, como sorteios, feiras agropecuárias, advocacia consultiva e transações com ativos de origem rural e digital;
- Maior integração entre autoridades como Polícia Federal, Receita, Ministério Público e o próprio Coaf, com fluxo ágil e seguro de informações.
“A implementação dessas medidas é uma decisão estratégica para o Brasil, não apenas para o aprimoramento técnico, mas para a proteção da economia e o enfraquecimento do poder de facções criminosas que ameaçam diretamente a segurança pública e a soberania nacional”, afirma Camila Funaro Camargo Dantas, CEO da Esfera Brasil.
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Última atualização em 21/07/25 por Viviane Pedro


