A seguir:
- Setor estima que apenas dez empresas obtenham a licença do Banco Central.
- Exigências de capital podem variar de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões.
- Corretoras encerram, transferem ou reorganizam operações no Brasil.
A nova regulamentação dos ativos virtuais pode reduzir de forma significativa o número de empresas que operam com estrutura própria no Brasil. Profissionais do setor estimam que apenas dez empresas cripto devem conseguir a licença do Banco Central, embora o mercado reúna entre 150 e 200 participantes.
A projeção não representa uma estimativa oficial do regulador. Segundo executivos ouvidos pelo Valor Investe, entre 20 e 25 companhias teriam capital, estrutura ou interesse em solicitar a autorização. Contudo, apenas cerca de dez reuniriam todas as condições necessárias para receber a aprovação.
Nesse cenário, algumas plataformas já encerraram operações, transferiram clientes ou reformularam sua atuação no país. As exigências de capital, governança, segurança e conformidade aumentam a pressão principalmente sobre empresas menores, que enfrentam mais dificuldades para absorver os novos custos.
Licença do Banco Central pode acelerar consolidação
As regras do Banco Central para as prestadoras de serviços de ativos virtuais entraram em vigor em 2 de fevereiro de 2026. As companhias que já atuavam no Brasil receberam um período de transição para solicitar a licença do Banco Central, com prazo previsto até 29 de outubro.
A partir de 30 de outubro, instituições autorizadas pelo regulador não poderão facilitar operações com prestadoras que estejam fora do processo de autorização. Dessa forma, o calendário regulatório pode acelerar fusões, acordos comerciais e encerramentos no setor brasileiro de criptomoedas.
Além do capital mínimo, as empresas precisam manter estruturas adequadas de governança, controles internos e segurança cibernética. Também devem cumprir medidas de prevenção à lavagem de dinheiro e garantir a separação dos ativos mantidos em nome dos clientes.
Portanto, conseguir uma licença do Banco Central para operar com criptomoedas envolve muito mais do que protocolar um pedido. As empresas precisam demonstrar capacidade financeira, operacional e tecnológica para atender continuamente às regras estabelecidas pelo regulador.
Empresas cripto reorganizam operações no Brasil
A NovaDAX anunciou, em junho, o encerramento de suas operações. Ao mesmo tempo, a companhia firmou um acordo para facilitar a migração dos clientes para a Foxbit. O site da NovaDAX também passou a exibir um aviso sobre a descontinuidade da plataforma.
A Digitra.com tomou uma decisão semelhante. A empresa encerrou sua operação voltada ao varejo e direcionou os clientes à Foxbit. Além disso, a página oficial da companhia apresenta um comunicado sobre o fechamento dos serviços de negociação e custódia.
Já a Bitso optou por reorganizar sua presença no mercado brasileiro. No início de setembro, a empresa anunciou uma parceria com o Mercado Bitcoin. Com isso, os clientes pessoa física passaram a investir por meio do MB, enquanto a Bitso concentrou seus esforços em infraestrutura e soluções destinadas a instituições.
A Mynt também passou por uma reformulação. A plataforma de criptoativos do BTG Pactual acabou incorporada às próprias plataformas do banco. Essas movimentações mostram que a adequação regulatória não leva necessariamente à saída completa do mercado, mas pode alterar modelos de negócio e prioridades estratégicas.
Coinext não alcançou capital para solicitar licença
A Coinext relacionou diretamente o encerramento de sua atividade como corretora às novas exigências regulatórias. De acordo com a empresa, o capital disponível não alcançou o valor mínimo necessário para apresentar o pedido de licença do Banco Central.
Antes de decidir pelo encerramento, a companhia conversou com possíveis parceiros e analisou alternativas para manter suas atividades. No entanto, não encontrou uma solução considerada viável. A Coinext afirmou que iniciou o processo enquanto ainda possuía recursos, equipe e infraestrutura para devolver os valores pertencentes aos clientes.
O cronograma divulgado pela empresa prevê o encerramento das negociações em 15 de outubro. Por sua vez, os clientes poderão solicitar saques de criptoativos até 20 de outubro. Os saques em reais continuarão disponíveis por prazo indeterminado, conforme as informações divulgadas pela companhia.
Bitnuvem iniciou retirada antes das novas regras
O processo de desativação da Bitnuvem começou antes. Embora levantamentos do mercado relacionem o encerramento ao cenário de 2026, o comunicado oficial informa que a retirada gradual dos serviços teve início em outubro de 2025, após comunicação aos clientes.
A empresa atribuiu a decisão a uma combinação de fatores. Entre eles, citou a concorrência com grandes companhias internacionais e uma regulamentação que considera desfavorável às fintechs. Atualmente, a Bitnuvem mantém um portal para consulta ao histórico e orienta clientes com saldo a solicitar a retirada.
Assim, os encerramentos não possuem necessariamente a mesma causa ou o mesmo cronograma. Entretanto, todos ajudam a mostrar como o aumento da concorrência e o custo da conformidade podem transformar o mercado brasileiro de criptoativos.
Capital mínimo dificulta licença do Banco Central
A Resolução Conjunta nº 14 apresenta diferentes componentes para calcular o capital social e o patrimônio líquido mínimos das prestadoras. De acordo com as atividades realizadas e os riscos assumidos, os valores podem variar de aproximadamente R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões.
Para Marcelo Manzano, gerente de Soluções e Engenharia da Snowflake Brasil, existe um risco real de consolidação. Na avaliação do executivo, as novas exigências favorecem empresas que já contam com maior escala e capacidade financeira para manter operações, tecnologia e equipes de conformidade.
Apesar das estimativas do setor, o Banco Central não estabeleceu um limite de dez autorizações. O número funciona apenas como uma projeção de profissionais que acompanham o mercado. A quantidade efetiva dependerá dos pedidos apresentados e da capacidade de cada empresa para atender aos critérios regulatórios.
A implementação da licença do Banco Central deve marcar, portanto, uma nova etapa para o setor de criptomoedas no Brasil. Enquanto grandes plataformas podem ganhar espaço, empresas menores precisarão buscar capital, formar parcerias, ajustar seus modelos de negócio ou deixar determinadas áreas de atuação.


