Os mercados de previsão erraram o resultado das eleições brasileiras e especialistas apontam a proibição das plataformas no país como causa central da falha. Com liquidez inferior a 5% do volume registrado nos Estados Unidos, esses mercados ficaram vulneráveis à influência de poucos investidores e a um influxo de traders de varejo sem conhecimento específico do eleitorado brasileiro.
A seguir:
- Por que a proibição das plataformas criou condições para o erro
- Como investidores de varejo distorceram as probabilidades
- O que distingue um mercado de previsão confiável de um termômetro impreciso
Polymarket e Kalshi, as principais plataformas internacionais de mercados preditivos, operaram contratos sobre as eleições brasileiras mesmo após serem bloqueadas pelos reguladores e terem páginas removidas das redes sociais.
A Secretaria de Prêmios e Apostas chegou a solicitar à Meta o bloqueio de perfis das empresas no Instagram, medida atendida após o TSE acionar a AGU e a Fazenda. Em nota, a Polymarket afirmou que
“Respeita as autoridades competentes e cumpre as determinações que lhe são dirigidas em cada jurisdição”.
O problema é que o bloqueio não impediu as negociações. Ao contrário, as tornou mais precárias: quem ainda operava nesses mercados era uma amostra pequena e pouco representativa do eleitorado.
Proibição reduziu a liquidez e ampliou a distorção
O argumento central dos especialistas é direto: sem liquidez suficiente, qualquer posicionamento concentrado move o preço de forma desproporcional. O volume negociado nas eleições brasileiras chegou a menos de 5% do que se observa em disputas americanas, segundo a pesquisa. Esse desequilíbrio transforma o preço do contrato em sinal ruidoso, não em consenso informado.
Com poucos apostadores na mesa, o risco de manipulação cresce. Um grupo pequeno de investidores consegue elevar artificialmente a probabilidade de um candidato sem que contratos na direção oposta corrijam o movimento, como ocorreria num mercado com alta liquidez.
Além disso, as odds passaram a ser calibradas com base em pesquisas de intenção de voto, não a partir de informação proprietária dos próprios participantes. Isso faz com que o mercado reflita as pesquisas com atraso, em vez de capturar sinal independente sobre o comportamento do eleitorado.
Varejo diluiu o conhecimento especializado
Em tese, os mercados preditivos funcionam porque quem tem informação diferenciada arrisca dinheiro real nela. O economista Pedro Araújo explicou o mecanismo:
“Eles costumam ser extremamente precisos porque incentivam os agentes bem informados a revelarem, por meio de suas posições, esse conhecimento diferenciado.”
Pedro Araújo, economista, em entrevista à Exame
O problema no Brasil foi justamente a ausência desse filtro. A proibição afastou operadores profissionais e deixou o mercado para investidores de varejo sem domínio do contexto eleitoral local. O resultado foi uma onda de apostas guiadas por narrativa política, não por análise.
Bruno Mattos, pesquisador citado pelo fact-checking da AFP, observou que os mercados de previsão preencheram um vácuo de credibilidade deixado pelas pesquisas eleitorais tradicionais:
“Os mercados de previsão acabam ocupando um espaço deixado por essa erosão de confiança, atuando, inadvertidamente ou não, como alternativas potencialmente mais confiáveis para acompanhar as oscilações da disputa eleitoral.”
Bruno Mattos, pesquisador, em verificação da AFP Checamos
A lógica é paradoxal: justamente porque as pesquisas perderam credibilidade junto a parte do eleitorado, os mercados proibidos ganharam audiência como substitutos. Mas operam com limitações estruturais que os tornam ainda menos confiáveis do que as sondagens que deveriam substituir.
Como o preço virou palpite coletivo
O mecanismo dos mercados preditivos é sensível à entrada de novos participantes. Breno Adaid, professor da Universidade de Brasília, descreveu como a dinâmica de preços funciona:
“Nesse sistema, a remuneração sofre influência de novos apostadores. Quanto mais as pessoas apostam na probabilidade de algo ocorrer, menor fica a remuneração, assim como quando uma nova informação surge favorecendo ou desfavorecendo aquela previsão.”
Breno Adaid, professor da Universidade de Brasília, em verificação da AFP Checamos
Com pouca liquidez e muitos apostadores de varejo entrando ao mesmo tempo, o preço deixou de refletir probabilidade real e passou a medir o entusiasmo de grupos organizados. Plataformas chegaram a atribuir mais de 60% de chance de vitória a um candidato enquanto as pesquisas apontavam empate técnico.
O caso contrasta com o que ocorreu nos Estados Unidos em 2024, quando os mercados preditivos anteciparam com acerto o resultado presidencial. Lá, o volume alto e a participação de operadores institucionais mantiveram o sinal limpo. No Brasil, o ambiente proibitivo produziu o efeito oposto: afastou quem tem incentivo para acertar e atraiu quem aposta por convicção política.
O debate sobre a regulamentação dos mercados de previsão no Brasil segue em aberto. Sem regras claras que permitam operação legal com liquidez adequada, esses mercados tendem a reproduzir o mesmo viés nas próximas disputas eleitorais.
Perguntas frequentes
Por que os mercados de previsão funcionam melhor nos EUA do que no Brasil?
Nos EUA, as plataformas operam legalmente e atraem volume alto, o que dilui o impacto de apostas individuais. No Brasil, a proibição reduz a liquidez a menos de 5% do equivalente americano, tornando o preço dos contratos sensível a poucos operadores e mais fácil de distorcer.
Quem pode participar dessas plataformas mesmo com a proibição?
Qualquer pessoa com acesso a VPN ou às plataformas por outros meios pode operar. Isso significa que o perfil dos apostadores não representa o eleitorado: participam quem tem interesse em cripto ou em apostas online, não uma amostra representativa da população votante.
Os mercados de previsão vão continuar operando nas próximas eleições?
As plataformas internacionais já demonstraram que continuam abertas mesmo após bloqueios. Sem uma regulamentação que estabeleça regras claras para operação legal no Brasil, o padrão tende a se repetir: proibição formal, operação informal e liquidez insuficiente para produzir previsões confiáveis.


