A seguir:
- A Grayscale liga o avanço da inteligência artificial ao aumento do risco de vigilância financeira.
- A gestora aponta a Zcash como resposta técnica, com dados sobre o uso do modo protegido da rede.
- A tese esbarra em obstáculos regulatórios que já afetam moedas de privacidade, inclusive no Brasil.
A gestora Grayscale publicou, em agosto, um relatório que liga o avanço da inteligência artificial à privacidade financeira. O documento, assinado por Zach Pandl, chefe de pesquisa da empresa, elege a Zcash como a resposta técnica mais madura ao problema.
O relatório chega poucos dias após a estreia do Grayscale Zcash Trust (ZCSH) na bolsa NYSE Arca, em 25 de agosto, reforçando a leitura de que a gestora tenta transformar uma tese técnica em produto financeiro.
A tese: por que a IA muda o cálculo da privacidade?
Pandl enquadra o momento atual como a terceira onda de ameaças à privacidade financeira. A primeira foi a informatização de registros bancários, nos anos 1970, enquanto a segunda, a expansão da internet, aconteceu nos anos 1990.
Hoje, sistemas de IA tornam mais fácil cruzar atividade em blockchains públicas com dados externos, conectando endereços pseudônimos a identidades reais. Isso ameaça até transações hoje consideradas discretas.
Em post oficial, a própria Grayscale resumiu a virada: “Privacy isn’t a feature. It’s infrastructure” (privacidade não é um recurso, é infraestrutura).
Os números por trás da aposta em Zcash
A Zcash usa provas de conhecimento zero: a rede confirma que uma transação é válida sem revelar remetente, destinatário ou valor, com opção de divulgação seletiva quando necessário.
Segundo os dados citados no relatório, em 20 de julho de 2026 as transações protegidas (“shielded”) já representavam cerca de 90% do total de transações da rede. Cerca de 4,2 milhões de ZEC, 25% da oferta circulante, estavam no pool protegido, somando valor de mercado próximo a US$ 8 bilhões.
Além disso, o relatório cita avanços de infraestrutura: melhorias na carteira Zodl, mineração institucional e upgrades propostos como Tachyon e Crosslink, voltados a tornar o uso protegido mais rápido e acessível.
Os obstáculos: regulação, exchanges e o caso brasileiro
No entanto, o próprio relatório reconhece limites. Historicamente, a maior parte do uso da Zcash foi transparente, não protegida. Além disso, moedas de privacidade seguem sob pressão regulatória desigual entre jurisdições, e várias exchanges já as removeram por questões de conformidade.
No Brasil, o momento é difícil. O Banco Central endureceu recentemente as exigências para prestadoras de serviço de ativo virtual, elevando o custo regulatório de operar no país.
Nesse cenário, já surgem estruturas jurídicas alternativas que tentam preservar autocustódia fora do enquadramento tradicional de PSAV, um sinal local de que a privacidade, como argumenta Pandl, está deixando de ser nicho para virar cálculo defensivo.
Ainda assim, a adoção em massa depende mais de regulação e aceitação institucional do que de capacidade criptográfica.


