A seguir
- O mercado de Bets no Brasil cresce em escala nacional, com 25 milhões de apostadores e receita bruta de R$ 37 bilhões em 2025.
- Cerca de 23% dos apostadores do mercado de apostas online cortaram compras de vestuário e 19% reduziram gastos em supermercados para apostar.
- O mercado ilegal de apostas online responde por 85% da receita do setor, com evasão fiscal anual estimada em mais de R$ 7 bilhões.
Não é exagero dizer que as Bets no Brasil, com suas apostas online, mudaram a lógica do consumo no país. Um estudo conduzido pela Tendências Consultoria em parceria com a Peers Consulting + Technology mapeou o tamanho real desse fenômeno, e os números são difíceis de ignorar.
Só em 2025, o setor movimentou R$ 37 bilhões em receita bruta, com mais de 25 milhões de brasileiros apostando em ao menos uma das 79 plataformas autorizadas pelo governo federal.
Mas o que o levantamento revela vai além da escala. O avanço das apostas online representa, na prática, uma disputa silenciosa pelo orçamento doméstico, especialmente nas classes C, D e E.
E essa disputa tem perdedores concretos: a geladeira, a mensalidade, a poupança.
Apostas online entram na conta do mês
Quando 23% dos apostadores relatam ter deixado de comprar roupas para continuar apostando, e 19% afirmam ter cortado gastos no supermercado, fica claro que as bets deixaram de ser uma despesa ocasional. Viraram linha fixa no orçamento.
O estudo é direto ao identificar esse mecanismo: o principal efeito econômico das apostas não é substituir um produto específico, mas competir de forma recorrente com toda a carteira do consumidor.
Isso muda completamente o tipo de problema que os formuladores de política pública precisam enfrentar.
Na educação superior, esse impacto também aparece. O crescimento das plataformas de apostas online passou a representar um obstáculo real tanto para o ingresso quanto para a permanência de estudantes de menor renda, que, em muitos casos, precisam escolher entre a mensalidade e o hábito de apostar.
O Pix como acelerador das apostas online
Por que o setor cresceu tão rápido? Parte da resposta está no Pix. A possibilidade de depositar e sacar dinheiro de forma instantânea eliminou uma das principais barreiras de entrada nas plataformas digitais, tornando o processo tão simples quanto uma transferência bancária comum.
O resultado: o Brasil se tornou o quinto maior mercado global de apostas online, com movimentação mensal estimada entre R$ 20 e R$ 30 bilhões.
Fernando Escobar, sócio-diretor da Peers Consulting + Technology, resume bem o que aconteceu:
“Essa combinação de tecnologia, meios de pagamento instantâneos e baixa fricção de entrada ajuda a explicar a velocidade de crescimento.”
O setor gerou mais de 10 mil empregos diretos e 5,5 mil indiretos em 2025. Não é um mercado marginal. É uma força econômica instalada e que cresce com força fora das grandes cidades, num processo de interiorização que o estudo considera acelerado.
Apostas disputam espaço com investimentos financeiros
Há um dado no estudo que merece atenção especial. Em 2024, cerca de 15% da população realizou ao menos uma aposta online, percentual superior ao de uso de vários produtos financeiros tradicionais.
Isso coloca as bets em competição direta não apenas com o consumo imediato, mas com instrumentos de formação de patrimônio: poupança, CDB, previdência privada.
Para quem trabalha com inclusão financeira, esse número é um sinal de alerta. O brasileiro de menor renda, que já tem acesso restrito ao sistema financeiro formal, passa a direcionar parte de seus recursos para plataformas de apostas em vez de produtos que constroem reservas.
85% do mercado ainda opera na ilegalidade
Apesar da regulação aprovada, o mercado ilegal de apostas online segue dominante.
O estudo estima que ele responda por cerca de 85% da receita bruta total do setor, com evasão fiscal superior a R$ 7 bilhões por ano. Um número que coloca em perspectiva os limites do arcabouço regulatório atual.
Além do impacto fiscal, o mercado clandestino expõe os usuários sem qualquer proteção. Sem monitoramento de risco, sem mecanismos de defesa do consumidor, sem limites de perda.
A experiência de outros países mostra que a legislação isolada não resolve — é preciso fiscalização real e incentivos econômicos que tornem as plataformas legais genuinamente mais vantajosas.
Uma nova lógica de consumo
Alessandra Ribeiro, diretora de Macroeconomia da Tendências Consultoria, coloca o debate em perspectiva mais ampla:
“O que observamos é uma nova dinâmica de competição pelo orçamento disponível, especialmente nas faixas de menor renda, com impactos que alcançam segmentos relevantes como varejo, serviços financeiros e educação.”
Não se trata de moralizar sobre o ato de apostar. O ponto central do estudo é outro: as apostas online já alteraram de forma estrutural o padrão de consumo das famílias brasileiras e isso tem consequências econômicas que vão muito além do setor em si.
O Brasil ainda está no começo do processo de entender e regular esse impacto.


