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Site troca criptomoedas por divulgação pró-Flávio Bolsonaro

Tokens vão para quem posta pedindo voto no 22, e uma resolução do TSE de março proíbe exatamente recompensa por conteúdo eleitoral.

Site troca criptomoedas por divulgação pró-Flávio Bolsonaro

A seguir:

  • O que um site entrega a quem publica pedido de voto nas redes
  • O papel de um perfil com 12,9 milhões de seguidores que arrecada para crianças em Uganda
  • A regra que o TSE reescreveu em março e que mira exatamente esse desenho

Um site lançado nesta semana paga em criptomoeda quem publicar conteúdo pedindo voto em Flávio Bolsonaro. A contrapartida é um post nas redes sociais. O segundo turno da Presidência é em 17 dias.

O ativo é o Brasil 22 Token (B22), uma memecoin: criptomoeda sem utilidade técnica, movida por narrativa. Foi lançado na terça-feira, 6 de outubro.

Quem publica que participa da “comunidade B22” recebe tokens, segundo o site do projeto. Vídeos que circulam com a marca do token pedem voto no número 22, o do PL.

Pagar por engajamento político, porém, é exatamente o que uma resolução do TSE passou a vedar neste ano. Flávio fez 47,04% dos votos válidos no primeiro turno, contra 45,15% de Lula, segundo a Agência Senado.

Crianças em Uganda, camiseta amarela e um domínio sem dono

O eixo da divulgação é o perfil hyperskidsafrica no Instagram, que soma 12,9 milhões de seguidores. A conta arrecada para construir casas para crianças em Kampala, Uganda.

Um vídeo com crianças de camiseta amarela estampada “B22 token” passou de 1,2 milhão de visualizações. Nele, as crianças pedem que o público compre e compartilhe o token.

As crianças também citam Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira e Pablo Marçal. O site afirma que parte das vendas iria para a obra em Kampala.

Quem opera a estrutura não aparece. O registro do domínio está protegido, e quem anuncia o token no X é Kevim Flores, que não se declara responsável.

Flores projetou “mais de 3.000% de valorização” caso o senador vença. É promessa de marketing, não dado de mercado.

O próprio site se blinda. O texto diz que a distribuição ocorre “independente de voto, preferência eleitoral ou divulgação de propaganda eleitoral”.

Afirma ainda não ter vínculo com político, partido, candidatura ou campanha. Também nega ser forma de doação eleitoral.

A regra do TSE é de março e descreve o desenho

Aqui está o ponto que a cobertura do caso tem deixado de fora. A vedação não é interpretação de advogado: está escrita.

A Resolução TSE 23.755, de 2 de março de 2026 alterou a Resolução 23.610/2019. O artigo 29, parágrafo 8º, passou a proibir esquemas de ranking ou recompensa nesse formato.

Na prática, a vedação alcança quem oferece, direta ou indiretamente, vantagem econômica a pessoas físicas ou jurídicas que publiquem conteúdo político-eleitoral em seus perfis.

Dois dispositivos cercam o caso. O artigo 57-C da Lei 9.504/1997 veda propaganda paga na internet. O mesmo artigo proíbe propaganda eleitoral em site de pessoa jurídica, ainda que gratuita.

Somado a isso, a lei admite doação de campanha apenas de pessoa física. Se a Justiça Eleitoral enxergar vantagem econômica em troca de propaganda, o enquadramento vai além da propaganda irregular.

O tribunal já havia traçado onde fica a linha: vaquinha virtual é permitida na campanha, doação em Bitcoin não.

O precedente Marçal não é o que andam dizendo

A comparação com os campeonatos de cortes de Pablo Marçal em 2024 é inevitável. Vale corrigir um detalhe que circula errado.

Em 4 de dezembro de 2025, por 4 votos a 3, o TRE-SP manteve a inelegibilidade de oito anos. O fundamento foi uso indevido dos meios de comunicação social.

O mesmo acórdão afastou as condenações por arrecadação e gastos ilícitos e por abuso de poder econômico. Ou seja, o que sustenta a inelegibilidade até 2032 é o uso indevido das redes.

Marçal segue inelegível e teve a candidatura presidencial barrada pelo TSE.

Especialistas ouvidos pela imprensa veem o mesmo molde. Para o advogado eleitoral Hélio Silveira, trata-se da “mesma lógica e estrutura” do caso Marçal.

A pesquisadora Nina Santos, do INCT em Democracia Digital, classificou a operação como “um esquema extremamente complexo e ilegal”.

Até o fechamento desta edição não havia representação protocolada nem manifestação do TSE sobre o B22. A campanha de Flávio Bolsonaro disse que responderia aos questionamentos.

Para o mercado cripto brasileiro, o caso abre uma frente nova. Um ativo cujo pitch é a vitória de um candidato não é só memecoin: é aposta eleitoral embalada como token.

A região já viu esse filme. O LIBRA levou a Justiça argentina a investigar os celulares de Javier Milei.

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