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Fim do DePix? Detalhes sobre o hack da Liquid Network

Entenda como um bug de 2 anos em código aberto permitiu que invasores roubassem US$ 320 milhões da Liquid Network, e o que vem a seguir para a stablecoin DePix.

Entenda o bug que habilitou o hack à Liquid Network. Imagem: IA.

Embora a DePix, stablecoin pareada ao Real que virou febre entre os brasileiros, não tenha sido comprometida pelo bug que expôs a Liquid Network, suas transações ficaram travadas pela pausa forçada na infraestrutura que sustenta o ativo.

O motivo dessa pausa foi a exploração de um bug em trecho do software Elements, mantido pela Blockstream, que levou ao hack de cerca de 4.000 BTC (aproximadamente US$ 320 milhões) da carteira da federação da Liquid.

A seguir:

  • Como um bug esquecido há 2 anos driblou as 11 de 15 assinaturas da federação Liquid sem roubar nenhuma chave.
  • Por que Bitfinex, carteiras como a Aqua e a stablecoin brasileira DePix sentiram o impacto mesmo sem terem sido diretamente atacadas.
  • O que aconteceu com o dinheiro, e o que vem a seguir?

O ataque à Liquid Network começou na noite de domingo (6) e, menos de 40 horas depois, 3.400 dos 4.000 BTCs drenados foram devolvidos, segundo comunicado da Blockstream. No entanto, a rede ainda está em risco.

O que é e como funciona a Liquid Network

A Liquid Network é uma sidechain do Bitcoin lançada em 2018 pela Blockstream. A rede processa hoje ativos institucionais de mais de 80 membros federados, incluindo exchanges e gestoras que buscam mais velocidade e privacidade nas transações.

Além disso, a Liquid é controlada por uma federação de 15 participantes, que precisam reunir 11 assinaturas válidas para autorizar qualquer transação. É uma custódia compartilhada através de múltiplas assinaturas (multisig).

A infraestrutura é mantida por membros como a Mempool.space, responsável por hospedar o explorador liquid.network. Outro membro é a SideSwap, corretora que processa pedidos de conversão entre L-BTC e Bitcoin nativo.

A falha técnica que permitiu o roubo de US$ 320 milhões

Foi justamente o canal da SideSwap que o invasor usou para sacar os fundos. O saque começou na noite de domingo no horário de Brasília, quando um invasor usou a chave de autorização de peg-out (PAK) da corretora para sacar os fundos.

Como resultado, a transação fraudulenta consumiu 95% do saldo então disponível na carteira da federação. Segundo a Blockstream, “essa chave específica não foi comprometida, nem outras”, o que descarta o roubo de credenciais.

De acordo com investigação técnica da Protos, o problema estava na validação de provas criptográficas (range proofs) do Elements, o software open-source que roda a Liquid. Um cache mal configurado aceitava provas verificadas em um contexto e as reutilizava em outro, sem revalidação completa.

Na prática, isso permitiu que uma prova legítima de posse de 2,65 BTC fosse reaproveitada para simular um valor muito maior.

Dessa forma, as 11 assinaturas da federação foram coletadas normalmente, garantindo que o sistema multisig funcionasse como projetado. Contudo, a falha estava na camada anterior, que decide se uma transação é legítima antes de chegar aos signatários.

A resposta da Blockstream foi imediata: desativar os nós de ponte (bridge nodes) e pausar novas transações na rede. Isso travou qualquer movimentação de L-BTC, o Bitcoin “empacotado” que circula dentro da Liquid.

No entanto, a empresa reconheceu que esse trecho do código não recebia atualização há mais de dois anos.

Hack ético ou roubo descarado?

A comunicação entre a Blockstream e o invasor aconteceu inteiramente on-chain, via transações com mensagens OP_RETURN e assinaturas PGP. O invasor exigiu a correção do bug e a confirmação de que todos os nós estavam atualizados antes de devolver qualquer valor.

Às 09h19 UTC de 7 de setembro, a Blockstream publicou uma mensagem assinada confirmando que os nós estavam corrigidos. Pouco depois, o hacker devolveu 3.400 BTC, mas reteve os 598,5 BTC restantes como recompensa não negociada, cerca de 15% do total roubado.

O impacto do hack à Liquid Network e trava no DePix

A exchange Bitfinex bloqueou depósitos e saques de L-BTC assim que o incidente veio a público. A carteira Aqua também suspendeu movimentações do ativo. Por outro lado, ativos como USDT emitido na Liquid e tokens de ativos do mundo real (RWAs) continuaram operacionais, pois não dependem dos nós de ponte afetados.

Já a DePix, stablecoin atrelada ao real que brasileiros adquirem via Pix, sofreu com a trava pela desativação dos nós de ponte. Assim, quem mantinha saldo em DePix na carteira, ficou temporariamente sem poder enviar, receber ou converter a stablecoin.

O caso reforça como stablecoins como a DePix já viraram infraestrutura de pagamentos no dia a dia de brasileiros.

Risco de descolamento do L-BTC

Enquanto os US$ 47 milhões não devolvidos não forem cobertos, o L-BTC corre risco de perder a paridade 1:1 com o Bitcoin. Um desconto persistente no preço do L-BTC poderia gerar fuga de liquidez da rede, aprofundando a desconfiança entre os participantes da federação.

Até a publicação desta matéria, a Blockstream não havia esclarecido publicamente seus próximos passos. Não se sabe se a empresa vai cobrir o rombo com recursos próprios ou tentar recuperar os 598,5 BTC retidos. Além disso, o CEO da empresa, Adam Back, também não se pronunciou individualmente sobre o caso.

Por fim, o episódio reforça um ponto sensível para quem opera em sidechains e pontes entre blockchains: a segurança de um sistema multisig depende inteiramente do código que decide o que chega aos signatários.

Além disso, não é a primeira vez que uma rede tenta reverter um ataque: a Cronos recuperou US$ 111 milhões de forma parecida após o ataque ao protocolo Tectonic.

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