Flávio Bolsonaro, senador pelo PL-RJ e candidato à Presidência, atuou como advogado de dois empresários acusados pelo Ministério Público Federal de participação no esquema da GAS Consultoria, empresa de Glaidson Acácio dos Santos, o ‘Faraó dos Bitcoins’. O esquema, identificado na Operação Kryptos da Polícia Federal, teria movimentado cerca de R$ 38,2 bilhões entre 2015 e 2021 e deixou mais de 77 mil credores.
A seguir:
- Quem são os dois empresários que Flávio Bolsonaro defendeu e qual a acusação do MPF
- Como o senador tentou encerrar a ação penal no Superior Tribunal de Justiça
- O que era a GAS Consultoria e como funcionava o esquema bilionário
Os clientes de Flávio Bolsonaro na causa são Márcia Pinto dos Anjos e Tunay Pereira Lima, apontados pelo MPF como sócios ocultos de Glaidson dos Santos. O senador ingressou na defesa em abril de 2025, quando um recurso de habeas corpus chegou ao Superior Tribunal de Justiça. Na petição, os advogados pediram o encerramento da ação penal contra os réus, alegando ausência de elementos suficientes para o prosseguimento do processo.
O pedido de encerramento da ação
A estratégia da defesa no STJ foi questionar a consistência probatória que sustenta a denúncia contra Márcia e Tunay. Os advogados argumentaram que os réus não teriam papel ativo no suposto esquema e que o processo não deveria avançar sem provas mais concretas de envolvimento direto.
A defesa da GAS Consultoria já havia usado linha semelhante em outras frentes do caso. Em declaração apresentada em julgamento da Comissão de Valores Mobiliários, a advogada dos réus comparou a situação da empresa à de qualquer banco que tivesse seus depósitos bloqueados pelo Judiciário:
“Qualquer banco sólido, e que tivesse todos seus depósitos e valores de operações sequestrados e postos indisponíveis pelo Judiciário, acabaria inviabilizado de honrar seus compromissos com os correntistas e investidores.”
A tese foi contestada pela acusação, que classificou o argumento como uma tentativa de transformar em ‘verdade’ o que seria apenas uma incapacidade estrutural de pagar os investidores, característica de um esquema de pirâmide.
O esquema da GAS Consultoria
A GAS Consultoria prometia rendimentos fixos de 10% ao mês por supostas operações com Bitcoin. Para captar clientes, os operadores participavam, segundo a acusação da CVM, de “diversos eventos ao público em diferentes cidades, com apresentações das ofertas de investimento inclusive em cultos religiosos, na presença de número indeterminado de pessoas.”
Entre 2015 e 2021, o dinheiro captado chegou a R$ 38,2 bilhões. A Operação Kryptos, deflagrada pela Polícia Federal, prendeu Glaidson dos Santos e desarticulou a estrutura central do grupo. A esposa de Glaidson foi presa nos Estados Unidos em ação conjunta com o ICE. O ‘Faraó dos Bitcoins’ foi posteriormente condenado também por assassinato e corrupção.
O caso é considerado a maior pirâmide financeira com Bitcoin já identificada no Brasil, com mais de 77 mil credores cadastrados no processo de recuperação.
Política e advocacia no mesmo mandato
A atuação de Flávio Bolsonaro como advogado no caso ocorre em paralelo ao exercício do mandato de senador e à construção da candidatura presidencial pelo PL. A proximidade do nome Bolsonaro com o universo de criptomoedas ganhou novos contornos com a revelação da defesa criminal em um dos casos mais emblemáticos de fraude com ativos digitais no país.
Não há incompatibilidade legal formal entre o exercício do mandato parlamentar e a advocacia no Brasil, mas a escolha de clientes acusados de integrar uma pirâmide bilionária com Bitcoin tende a se tornar tema de campanha, dado o perfil do eleitorado que Flávio Bolsonaro pretende conquistar em 2026.
Perguntas frequentes
Flávio Bolsonaro pode ser advogado sendo senador?
A legislação brasileira permite que parlamentares exerçam a advocacia, desde que não haja conflito de interesses com o mandato. A Constituição proíbe o senador de atuar em causas contra a União ou entidades públicas, mas causas entre particulares, como a defesa criminal dos sócios da GAS Consultoria, não estão vedadas expressamente.
Márcia Pinto dos Anjos e Tunay Pereira Lima foram condenados?
A ação penal contra os dois empresários ainda estava em curso quando o habeas corpus chegou ao STJ. O pedido de encerramento do processo foi apresentado pela defesa, mas não há registro na pesquisa disponível de decisão final sobre o mérito.
O que aconteceu com Glaidson Acácio dos Santos após a Operação Kryptos?
Glaidson foi preso na Operação Kryptos da Polícia Federal e posteriormente condenado por crimes que incluíam assassinato e corrupção, além das acusações relacionadas à pirâmide financeira da GAS Consultoria.


