A seguir:
- A Kraken emitiu mais de 56 milhões de formulários ao IRS em 2025, com 18,5 milhões para transações abaixo de US$ 1, expondo a urgência de uma isenção fiscal para criptomoedas em micropagamentos rotineiros.
- A exchange critica a tributação sobre renda “fantasma” do staking, que obriga detentores de criptomoedas a pagar imposto sobre recompensas antes de qualquer conversão em lucro real.
- Enquanto pressiona por isenção fiscal para criptomoedas no Congresso, a Kraken avança com planos de IPO, com o co-CEO confirmando abertura de capital em breve após pedido protocolado na SEC em 2025.
Quando uma empresa precisa enviar mais de 56 milhões de documentos fiscais em um único ano, algo no sistema claramente saiu dos trilhos.
Foi exatamente essa situação que levou a exchange Kraken a entrar no debate tributário americano com força total, pedindo uma isenção fiscal para criptomoedas em pequenas transações e o fim de uma cobrança que muitos investidores consideram injusta: o imposto sobre recompensas de staking antes mesmo de qualquer venda.
Os números divulgados pela exchange em um blog nesta quarta-feira são reveladores. Do total de formulários 1099-DA enviados ao IRS em 2025, cerca de 18,5 milhões registravam transações inferiores a US$ 1.
Outros 28 milhões ficaram abaixo de US$ 10, e três quartos do volume total não chegaram a US$ 50. Em outras palavras, o sistema obrigou a exchange e, por extensão, os contribuintes a documentar formalmente centenas de milhões em micromovimentações que mal cobrem o custo de uma bala de goma.
A isenção fiscal para criptomoedas que o congresso ainda não aprovou
A proposta da Kraken não é exatamente uma novidade no Congresso americano. Discussões sobre uma regra de isenção fiscal de minimis para criptomoedas circulam há anos pelos corredores de Washington, mas nenhuma versão consistente chegou a virar lei.
O projeto mais recente em tramitação sugere que apenas transações com stablecoins abaixo de US$ 200 estejam livres do reporte obrigatório ao IRS, uma janela estreita, que deixa de fora a grande maioria dos casos levantados pela própria Kraken.
Para a exchange, a lógica é direta: pequenos pagamentos rotineiros com ativos digitais não deveriam acionar obrigações de declaração de ganhos de capital.
Trata-se de um argumento difícil de rebater quando o sistema atual gera dezenas de milhões de formulários para transações que, somadas, talvez não cheguem a um salário mínimo mensal.
Staking: pagar imposto antes de ver o dinheiro
A segunda frente aberta pela Kraken toca em um ponto que incomoda boa parte dos investidores em criptomoedas: a tributação sobre recompensas de staking.
Hoje, quem mantém ativos em redes de validação e recebe recompensas por isso precisa declará-las como renda, mesmo que nunca tenha tocado nesses valores, nunca os tenha convertido em dólar ou qualquer outra moeda, e não tenha a menor intenção de fazê-lo no curto prazo.
O resultado é o que a Kraken chama de renda “fantasma”: um ganho tributável que existe no papel, mas não no bolso.
Para investidores de perfil conservador, que usam o staking como estratégia de acumulação de longo prazo, a cobrança representa um custo real sobre um lucro que, tecnicamente, ainda não aconteceu.
Um sistema que custa caro, e fica mais caro a cada ano
O peso da burocracia tributária nos Estados Unidos vai muito além das criptomoedas.
Dados da Tax Foundation, citados pela Fortune, apontam que contribuintes americanos gastam cerca de US$ 146 bilhões por ano apenas em tempo e despesas diretas para cumprir obrigações fiscais. É um valor que rivaliza com o orçamento de muitos países.
Esse cenário ficou ainda mais crítico depois que o governo Trump encerrou, em novembro de 2025, o programa Direct File do IRS, ferramenta gratuita que permitia a contribuintes elegíveis declarar impostos online sem custo nenhum.
Com o serviço desativado, quem não tem condições de pagar por um contador ou software especializado ficou sem opção acessível.
Kraken olha para a bolsa enquanto pressiona por mudanças
Enquanto articula mudanças regulatórias, a Kraken também cuida do próprio futuro no mercado de capitais.
A exchange protocolou confidencialmente um pedido de IPO junto à SEC em novembro de 2025, mas a turbulência dos mercados no início de 2026 gerou especulações sobre um possível adiamento.
O co-CEO Arjun Sethi, no entanto, dissipou parte das dúvidas em abril, durante um evento da Semafor, ao confirmar que a abertura de capital deve acontecer em breve.
A Kraken deixa claro que sua atuação vai além de operar uma plataforma de negociação.
Ao combinar pressão legislativa com movimentação estratégica no mercado financeiro tradicional, a exchange se posiciona como um dos atores mais influentes na disputa por regras mais justas para quem usa criptomoedas no dia a dia, e os 55 milhões de americanos que dependem dessas regras têm boas razões para acompanhar de perto o que vem a seguir.


