A saída do Mercado Bitcoin da ABcripto marca um dos maiores fendas do setor de cripto moedas brasileiro. A empresa afirma que a associação passou a defender pautas que favorecem companhias estrangeiras que atuam no país sem CNPJ ou representação local.
A seguir
- Mercado Bitcoin rompe com a ABcripto e afirma que a entidade se afastou de sua missão inicial e deixou de defender medidas que fortalecem o mercado cripto brasileiro.
- Crítica a empresas estrangeiras: o Mercado Bitcoin também acusou a ABcripto de favorecer companhias que atuam no Brasil sem CNPJ ou representação local, o que, segundo a empresa, coloca investidores em risco.
- Momento crítico: a ruptura ocorre enquanto o Banco Central avança na regulamentação do setor, ampliando a tensão dentro no mercado interno.
Segundo o MB, isso coloca investidores em risco e prejudica o desenvolvimento do mercado. A ABcripto nega ter recebido pedido formal de desfiliação. O caso ocorre enquanto o número de investidores cresce e o Banco Central avança na regulamentação do setor, tornando o debate sobre responsabilidade e segurança ainda mais relevante.
Por que o Mercado Bitcoin abandonou a ABcripto?
A relação entre a ABcripto e o Mercado Bitcoin chegou ao limite. Em um momento decisivo para o setor de criptoativos no Brasil, quando o Banco Central avança na regulamentação e o bitcoin já acumula quase 50% de valorização no ano, o Mercado Bitcoin decidiu deixar a principal entidade representativa do setor — e não saiu em silêncio. A empresa, que se tornou um dos maiores nomes da criptoeconomia brasileira, afirma que a ABcripto perdeu o foco e passou a defender interesses que não protegem o mercado local.
Com mais de 4 milhões de clientes e um volume que ultrapassa R$ 50 bilhões negociados desde 2013, o Mercado Bitcoin considera que a ABcripto, fundada em 2018 com apoio da própria empresa, abandonou sua missão inicial. Segundo o CEO do MB, Reinaldo Rabelo, a entidade prioriza pautas alinhadas a empresas com modelos de negócios que, na visão dele, colocam em risco a segurança do ecossistema cripto no país.
Mercado Bitcoin critica pauta da ABcripto e alerta para riscos ao mercado brasileiro
Rabelo afirma que a ABcripto passou a abraçar agendas que ajudam empresas que não seguem padrões adequados no Brasil. Para ele, muitos desses atores não demonstram compromisso real com o fortalecimento do mercado local. Segundo o executivo, companhias estrangeiras, às vezes sediadas em paraísos fiscais, operam no país sem CNPJ, sem representação legal e sem condições de responder por eventuais prejuízos.
O Mercado Bitcoin pressiona a ABcripto para exigir regras mínimas de responsabilidade, como CNPJ obrigatório para exchanges que atuam no Brasil, mesmo que operem a partir do exterior. Rabelo argumenta que essa exigência protege investidores e cria previsibilidade jurídica.
Ele cita o caso dos Estados Unidos, onde a exigência de representação local ajudou consumidores afetados pela Binance, diferentemente do cenário brasileiro.
A ABcripto, porém, considera esses requisitos desnecessários, o que, segundo o MB, favorece empresas que exploram o mercado sem internalizar riscos.
Como a mudança interna da ABcripto acentuou a ruptura
A relação entre as entidades se desgastou ao longo dos últimos anos, mas a tensão aumentou quando a ABcripto decidiu atrair grandes instituições para ampliar sua representatividade. A chegada de Mastercard, Visa, Deloitte e outras organizações ampliou o ecossistema, mas, na visão do MB, abriu espaço para pautas desalinhadas com o desenvolvimento sustentável do mercado brasileiro.
Além disso, a ABcripto eliminou um mecanismo que dava aos fundadores um “voto de Minerva” para evitar distorções na tomada de decisões. Sem essa trava, grupos com interesses distintos, inclusive escritórios de advocacia representando empresas estrangeiras, passaram a influenciar fortemente a agenda interna. Rabelo argumenta que esses agentes defendem pautas voltadas mais à exploração do mercado do que ao seu fortalecimento.
O CEO aponta ainda que a ABcripto não demonstra resistência à possível entrada da Binance na associação. Para o MB, que se posiciona de forma crítica à corretora, esse seria um ponto de ruptura definitivo.
ABcripto que não recebeu pedido formal de saída
Apesar das críticas contundentes do Mercado Bitcoin, a organização informou que não recebeu pedido formal de desfiliação. A entidade afirma que continua focada em promover um ambiente seguro do ponto de vista jurídico e de negócios, sempre dialogando com órgãos reguladores e com o próprio mercado. A associação destaca que, desde 2020, mantém um programa de autorregulação que padroniza práticas de conduta e prevenção à lavagem de dinheiro.
Mesmo assim, esse distanciamento parece irreversível. O MB afirma que suas pautas encontram mais espaço em outras entidades, como ABFintechs e Anbima, por se alinharem melhor à realidade regulatória e às operações da empresa.
O impacto da ruptura no mercado cripto brasileiro
A saída do Mercado Bitcoin chega em um momento sensível. O Brasil vive forte expansão no número de investidores, que saltou de 1,5 milhão em 2022 para mais de 4,1 milhões, segundo a Receita Federal. O país também se destaca como o maior mercado de cripto da América Latina, com movimentação estimada em US$ 26 bilhões em 2023 e previsão de chegar a US$ 33 bilhões em 2026.
Com o crescimento acelerado e a regulamentação avançando, o setor precisa de alinhamento e clareza estratégica. A ruptura entre ABcripto e Mercado Bitcoin expõe divergências profundas sobre o futuro da criptoeconomia no país.


