Novo relatório da Rain mostra que a adoção de stablecoins na região é estrutural, não especulativa, e o Brasil tem um papel diferente dos demais países.
A seguir:
- A América Latina moveu US$ 1,5 trilhão em criptomoedas entre 2022 e 2025, majoritariamente em stablecoins de dólar.
- O Brasil é o maior e mais avançado mercado de stablecoins da região, mas por razões diferentes do restante da LATAM.
- Um possível IOF de 3,5% sobre transferências internacionais com stablecoins pode reduzir a vantagem competitiva do Brasil.
A Rain, fintech de infraestrutura de pagamentos com stablecoin avaliada em US$ 1,95 bilhão, publicou na sexta-feira (12) o relatório State of Stablecoins in Latin America. O documento mapeia o uso de stablecoins nos principais mercados da região e aponta por que a adoção deixou de ser especulativa.
O número central: entre 2022 e 2025, a América Latina registrou aproximadamente US$ 1,5 trilhão em transações com criptomoedas, segundo dados da Chainalysis citados no estudo. Grande parte desse volume foi movimentado em stablecoins de dólar.
Por que a América Latina adota stablecoins
O relatório organiza os motivos por três forças. A primeira é a instabilidade cambial. O peso argentino perdeu mais de 99% do seu valor frente ao dólar na última década. A Bolívia viu suas reservas em dólar encolherem de US$ 15,1 bilhões em 2014 para cerca de US$ 1,7 bilhão em 2023, levando bancos a restringir gastos em cartões internacionais.
Nesse contexto, stablecoins como USDT e USDC funcionam como instrumento prático de proteção.
A segunda força são as altas taxas em remessas internacionais. Em 2024, quase US$ 170 bilhões em remessas fluíram para a América Latina e o Caribe, com custo médio entre 5% e 7% por transação. Stablecoins conseguem reduzir esse custo em até 92%, dependendo da plataforma.
A terceira força é o acesso bancário limitado. Cerca de 122 milhões de adultos na região não têm conta em banco. No México, 47% da população adulta ainda está desbancarizada. Na Colômbia, o índice é de 43%.
A adoção é estrutural, não especulativa
O relatório destaca que o volume B2B com stablecoins cresceu mais de 730% no ano de 2025, com pagamentos totais chegando a US$ 390 bilhões, mais que o dobro de 2024. Transações entre empresas já representam cerca de 60% desse volume.
Para efeito de comparação, são 57,7 milhões de pessoas na América Latina detendo ativos digitais, o que representa 12% da população da região.
Brasil: o maior mercado, com motivos diferentes
O Brasil é apontado no relatório como o maior e mais estruturalmente avançado mercado de stablecoins da América Latina. As stablecoins representam aproximadamente 90% do volume total de transações cripto no país.
O caso brasileiro, no entanto, difere dos demais. Com 93% da população usando o Pix e sem inflação de três dígitos desde o Plano Real em 1994, os brasileiros não adotam stablecoins por necessidade de sobrevivência financeira.
O que impulsiona o Brasil é o uso comercial, especialmente em importação, exportação e serviços remotos. Transferências bancárias tradicionais carregam spreads cambiais e atrasos de liquidação. O Pix, que cresceu 53% em volume de pagamentos em 2024, também criou uma base técnica que facilita a integração com stablecoins.
A regulação avançada também é citada como fator positivo. O Brasil criou um marco para prestadores de serviços de ativos virtuais (VASPs) e, desde fevereiro de 2026, a Resolução BCB nº 521 classifica transferências internacionais com stablecoins como operações de câmbio.
O risco do IOF
A mesma regulação abre caminho para um risco concreto. Com as operações de stablecoin enquadradas no regime cambial, a Receita Federal pode aplicar o IOF sobre essas transações.
A alíquota discutida é de 3,5% sobre operações acima de R$ 10 mil por mês. Especialistas do setor alertam que a medida aumentaria o custo transacional e reduziria o volume formal de stablecoins no Brasil, diminuindo a vantagem que a tecnologia oferece hoje frente aos canais tradicionais.
O que fica do relatório
O documento da Rain posiciona a empresa como infraestrutura para essa onda, e esse contexto deve ser levado em conta na leitura. Mesmo assim, os dados de base são de Chainalysis e Banco Mundial, fontes independentes.
O argumento central se sustenta: a adoção de stablecoins na LATAM não é narrativa cripto, mas resposta a problemas reais de câmbio, custo de remessa e acesso bancário. O Brasil lidera o volume, mas por um caminho diferente, e o tratamento regulatório dos próximos meses vai definir se mantém essa posição.


