Stablecoins responderam por 80% do volume de criptoativos declarado no Brasil em 2025, segundo a Receita Federal. No entanto, para a Coins.xyz, o próximo salto de adoção está fora do mercado cripto.
A seguir:
- A Coins.xyz aposta no comércio internacional como porta de entrada das stablecoins ao mainstream brasileiro.
- Como a empresa está construindo um corredor de pagamentos entre Brasil e Ásia.
- Uma mudança recente no Banco Central redefiniu o que uma stablecoin pode fazer no câmbio brasileiro.
Em entrevista exclusiva ao TechCripto, Guilherme Bissoli, Country Manager da Coins.xyz no Brasil, afirma que o comércio internacional será o motor que impulsiona a adoção no Brasil de stablecoins, criptomoedas atreladas a moedas fiduciárias, como o dólar ou real.
O corredor Brasil-Ásia que a Coins.xyz quer construir
A tese ganha uma dimensão concreta quando Bissoli descreve a estratégia da empresa para o mercado nacional. Segundo ele, a exchange está construindo um corredor entre o Brasil e a Ásia, com foco inicial nos fluxos corporativos.
“A gente tem um plano de negócio que é muito Brasil-Ásia”, revelou o executivo, destacando que o objetivo de longo prazo é ainda mais direto. “O produto máximo seria Brasil pagar a China diretamente, como se fosse um PIX.”
Um mercado de US$ 128,6 bilhões entre Brasil e China
A aposta da Coins.xyz acontece em uma relação comercial que já movimenta centenas de bilhões de dólares. Entre janeiro e agosto de 2026, o Brasil exportou US$ 77,07 bilhões para a China e importou US$ 51,56 bilhões.
Com isso, a corrente de comércio entre os dois países chegou a US$ 128,63 bilhões no período, o que representa uma alta de 12,7% em relação aos oito primeiros meses de 2025, segundo dados da Balança Comercial do MDIC.
É nesse fluxo que a empresa vê espaço para uma infraestrutura baseada em ativos digitais. Segundo Bissoli, a maior parte dos clientes que a operação brasileira atende hoje vem da Ásia.
“Os clientes que a gente tem vêm de lá, em grande maioria, para operar aqui. E a gente está tentando construir esse corredor.”
A proposta, portanto, não é simplesmente trazer uma exchange estrangeira para disputar usuários brasileiros. A empresa mira principalmente a infraestrutura necessária para que empresas operem entre diferentes mercados, movimento que já levou a Coins.xyz a expandir também para Europa e Ásia nos últimos meses.
De exchange de varejo a infraestrutura B2B
A Coins.xyz entrou no Brasil inicialmente com uma oferta mais básica, segundo o próprio executivo, a mesma fase em que a empresa ainda tratava o país como mercado de varejo.
A operação começou buscando paridade com produtos básicos do mercado, incluindo pares como USDT/BRL e BTC/BRL. Mas a estratégia evoluiu rapidamente para uma operação voltada a empresas, pagamentos internacionais e infraestrutura via API.
Segundo ele, a empresa atende atualmente clientes corporativos com equipes próprias de desenvolvimento. Por isso, a API se tornou uma peça central da estratégia.
Hoje, a oferta brasileira da Coins.xyz inclui:
- compra e venda de criptoativos com reais via Pix
- conversão de ativos
- pagamentos internacionais
- OTC (balcão)
- API para integração de empresas
Além disso, a exchange também apresenta uma infraestrutura B2B que combina ativos digitais, Global Pix Gateway, liquidação e serviços para negócios internacionais.
Por que pagamentos internacionais ainda são lentos
A promessa de pagamentos baseados em blockchain costuma ser associada à velocidade. Mas, na visão de Bissoli, o desafio mais complexo está em outro lugar.
Durante a entrevista, ele descreveu uma operação internacional como uma combinação de diferentes jurisdições, regras tributárias, licenças, liquidez e estruturas financeiras. Ao ser questionado pelo TechCripto sobre os fatores que mais encarecem os pagamentos cross-border, o executivo afirmou que a vantagem competitiva tende a estar em empresas capazes de operar em mais de uma jurisdição.
“O que vai se destacar vai ser, antes de tudo, é ter empresas com licenças em mais de um local, em mais de uma jurisdição, e que elas possam negociar entre si”, apontou Bissoli, citando como exemplo o tratado entre Brasil e Filipinas para evitar a dupla tributação.
Para ele, a competitividade dos pagamentos internacionais dependerá cada vez mais da capacidade de navegar por essas estruturas.
No entanto, o executivo ressalta que, hoje, o maior desafio operacional já não é mais a tecnologia, mas sim a interação dela com a regulamentação e as diferentes jurisdições.
“Mover dinheiro ainda é muito burocrático aqui.”
Resolução BCB 521 balançou o mercado
A tese da Coins.xyz chega justamente quando o Brasil passa por uma mudança significativa no tratamento regulatório dos ativos virtuais. A Resolução BCB 521, do Banco Central, incluiu determinadas atividades de prestadoras de serviços de ativos virtuais no mercado de câmbio — uma das novas exigências que já colocam pressão sobre as exchanges que operam no país.
Entre as atividades incluídas estão:
- pagamentos e transferências internacionais com ativos virtuais
- determinadas transferências relacionadas a cartões internacionais
- transferências envolvendo carteiras autocustodiadas
- compra, venda ou troca de ativos virtuais referenciados em moeda fiduciária
A norma também estabelece requisitos de identificação e rastreabilidade, segundo o Banco Central do Brasil. No caso de carteiras autocustodiadas, por exemplo, a prestadora precisa identificar o proprietário do ativo. Ela também deve manter processos documentados para verificar a origem e o destino dos recursos.
Para empresas que pretendem operar pagamentos internacionais usando ativos digitais, isso muda significativamente a estrutura necessária para competir. Na Coins.xyz, Bissoli diz que a adaptação regulatória já provocou uma reestruturação interna.
“A gente teve muita reestruturação”, revelou o executivo. “Tem um pacote de filings que você tem que fazer diário, semanal, mensal… Dá trabalho pra caramba fazer certinho.”
Mesmo com os desafios regulatórios, a aposta da Coins.xyz é que as stablecoins passem a atuar como uma camada de infraestrutura para conectar empresas, moedas e sistemas financeiros.


