ZCash Brasil no Discord.

Uber corta 10% do suporte por IA enquanto Patreon demite 20% e diz que IA não é o motivo

Uber eliminou funções de atendimento ao cliente por automação. Patreon demitiu 93 pessoas mas negou que IA seja a causa.

Uber corta 10% do suporte por IA enquanto Patreon demite 20% e diz que IA não é o motivo

Na mesma semana, duas empresas de tecnologia anunciaram demissões significativas. Os comunicados dizem coisas opostas sobre a IA. E os dois podem estar certos ao mesmo tempo.

A seguir:

A Uber cortou 10% da equipe de atendimento ao cliente, citando explicitamente a adoção de inteligência artificial como motivo central. O Patreon demitiu 93 pessoas, equivalente a 20% do quadro, e o CEO Jack Conte foi igualmente explícito: a IA não é o motivo dos cortes.

Dois casos, dois discursos. O mesmo resultado para quem perdeu o emprego.

Uber: a primeira demissão diretamente atribuída à IA

A Uber cortou funcionários da equipe de operações comunitárias, que cuida do suporte a motoristas e passageiros. Trabalhadores remotos foram também instruídos a se realocar para escritórios físicos sob a política de retorno ao trabalho presencial da empresa.

Megha Yethatika, vice-presidente de operações comunitárias globais da Uber, comunicou a decisão internamente com linguagem direta:

“Não podemos escalar tecnologia de ponta sobre processos fragmentados.” Em comunicado oficial, a Uber afirmou que busca “simplificar operações, fortalecer a colaboração presencial e continuar a adotar IA.”

É a primeira vez que a Uber vincula diretamente uma demissão a ganhos de eficiência com IA. Em maio, a empresa havia anunciado desaceleração nas contratações por causa do uso interno de IA. Em junho, cortou 23% da divisão de pessoas, menos de 1% do total de 34 mil funcionários globais.

O detalhe revelador: apesar dos cortes, a Uber ainda lista mais de 500 vagas abertas, incluindo engenheiros para parcerias com robotáxi. O padrão é o mesmo documentado em outros casos de 2026: funções operacionais são eliminadas, funções técnicas são mantidas ou ampliadas.

Patreon: “IA não está substituindo humanos”

O caso do Patreon tem um ângulo diferente. O CEO Jack Conte publicou o comunicado de demissão na própria conta do Patreon, com transparência incomum para esse tipo de anúncio corporativo.

Conte foi direto sobre o que a IA não é para o Patreon:

“Não estamos fazendo essas mudanças porque acreditamos que IA substitui humanos. Quanto mais aprendemos a usar essas novas ferramentas, mais fica claro que elas não são substitutos para a criatividade, julgamento, orientação a detalhes ou habilidade artesanal que nossos colegas têm.”

Ao mesmo tempo, reconheceu o que a IA é:

“A IA transformou fundamentalmente a indústria de tecnologia, incluindo como trabalhamos, como construímos produtos, como nos comunicamos. Isso tem impacto em como operamos e nos organizamos.”

Além dos cortes, o Patreon está reestruturando a organização, “achatando” o organograma e refocando equipes nas prioridades principais. Os demitidos recebem pelo menos 16 semanas de indenização, mais uma semana por ano trabalhado, cobertura de saúde até o fim do ano e US$ 1.500 para substituir o laptop corporativo.

É a maior rodada de demissões do Patreon desde que cortou 17% do quadro em 2022, quando também fechou escritórios em Berlim e Dublin.

O contexto adiciona uma camada de ironia. Na semana anterior às demissões, o Patreon havia anunciado parceria com a Cloudflare para bloquear ativamente bots de IA que raspam o conteúdo de criadores para treinar modelos. A plataforma que protege criadores humanos do avanço da IA demitiu 20% do próprio time poucos dias depois.

O número que conecta os dois casos

A Challenger, Gray & Christmas, empresa americana de recolocação profissional, registrou 101.743 anúncios de cortes de emprego nos EUA com IA como causa citada até junho de 2026, cerca de 23% do total de demissões no período. A IA liderou todas as razões declaradas para cortes por quatro meses consecutivos.

O dado é importante porque qualifica os dois casos simultaneamente. A Uber cita IA abertamente. O Patreon nega que IA seja o motivo. Mas os 101 mil cortes com IA como causa declarada mostram que, no agregado, o impacto já é mensurável, independente do discurso individual de cada empresa.

O CEO da Coinbase, Brian Armstrong, disse em maio que a IA havia “mudado drasticamente” o ritmo de trabalho e que a empresa precisava “retornar à velocidade de startup com IA como pilar central”, antes de demitir 700 pessoas, 14% do quadro. A Coinbase foi mais direta: 95% do código é hoje gerado com IA.

O que os casos de Uber e Patreon mostram, juntos, é que o mercado ainda não convergiu para uma narrativa única sobre a relação entre IA e empregos. Algumas empresas assumem a automação. Outras a negam enquanto reestruturamo quadro pelos mesmos motivos. O resultado, para quem está do lado errado dessas decisões, é o mesmo.

Avatar de Andressa Pontes

Escrito por