A seguir:
- A Bity encerra o atendimento, mas não manda todos os clientes para o mesmo destino
- Quatro datas decidem o que acontece com cada saldo e uma delas liquida sua posição sem pedir licença
- O Banco Central mexeu em uma regra um dia antes do anúncio. Coincidência?
A Bity anunciou em 2 de outubro de 2026 que encerra os serviços de criptoativos para clientes. A empresa opera duas marcas, Bitybank e BityPreço. Cada uma vai para um lugar diferente.
Os clientes da Bitybank foram direcionados ao Mercado Bitcoin. Já os da BityPreço vão para a Bipa. São dois acordos separados, anunciados no mesmo dia, com prazos e benefícios distintos. A Bity seguirá negociando com recursos próprios.
Duas marcas, dois destinos
A Bitybank reúne cerca de 850 mil usuários e mais de R$ 1 bilhão em ativos sob custódia, segundo as empresas. O número descreve a base atual da marca, não o total que efetivamente vai migrar.
Conforme a página oficial da migração, o processo começa no aplicativo da Bity. O usuário solicita a transferência e recebe um código de seis dígitos.
Em seguida, baixa o app do MB e insere o código durante o cadastro. Os criptoativos chegam em até um dia útil. O código é exigido inclusive de quem já tem conta no Mercado Bitcoin.
Do outro lado, a migração da BityPreço para a Bipa ocorre dentro do próprio aplicativo da BityPreço. A integração técnica dispensa recadastro manual na nova plataforma.
Quatro prazos e o que acontece com quem ignorar
A diferença decisiva entre as duas pontas está nas datas. Vale conferir qual se aplica ao seu saldo:
- 27 de novembro de 2026: último dia para migrar ou sacar na BityPreço antes da conversão automática em reais
- 29 de novembro de 2026: fim dos benefícios da migração Bitybank para o Mercado Bitcoin
- 2 de abril de 2027: prazo final para sacar os reais que ficaram na BityPreço
O ponto mais sensível é o primeiro. Quem não agir até 27 de novembro tem os criptoativos da BityPreço convertidos em reais automaticamente. Ou seja, a inércia não preserva a posição em Bitcoin, ela a liquida. Depois dessa data, resta apenas sacar o valor em moeda fiduciária até abril de 2027.
Na ponta do Mercado Bitcoin, as condições incluem período sem taxas, renda fixa digital e CryptoCrédito a 1,49% ao mês. Clientes com maior custódia também teriam assessor dedicado.
Na Bipa, quem concluir a migração na primeira semana ganha 12 meses de plano gratuito. Os planos pagos custam de R$ 14,90 a R$ 99,90 mensais, segundo o site da empresa, e rendem até 110% do CDI pagos em Bitcoin.
O Banco Central mudou a regra um dia antes
Nenhuma das empresas apontou a regulação como causa da decisão. Contudo, a cronologia é difícil de ignorar.
O artigo 91 da Resolução BCB 520 proíbe bancos e instituições de pagamento de operar com prestadoras de ativos virtuais não autorizadas. A redação original marcava 30 de outubro de 2026.
A Resolução BCB 589, de 23 de setembro, alterou esse artigo. A nova redação entrou em vigor em 1º de outubro, um dia antes do anúncio da Bity.
Duas coisas mudaram. A data passou para 6 de novembro de 2026. E a expressão “ou em processo de autorização” saiu do texto.
Na prática, estar na fila do BC deixou de proteger. Agora é preciso estar efetivamente autorizado. Até 18 de setembro, apenas cinco empresas haviam protocolado pedido.
Vale lembrar que o regulador já negou a primeira licença cripto do país. O corte, portanto, não é formalidade burocrática.
A fila de saídas de 2026
A Bity não abre essa fila. Em junho, a NovaDAX encerrou suas operações no Brasil. Em setembro, foi a vez da Coinext, que também indicou o Mercado Bitcoin aos clientes.
O MB informa ter cerca de 4,5 milhões de clientes e 13 anos de operação. A base da Bity não entra automaticamente nessa conta, porque cada migração depende de adesão individual.
Há ainda uma camada pouco explorada na cobertura. O Grupo Primo, de Thiago Nigro, tornou-se sócio da Biscoint em 2021. A BitPreço comprou a Biscoint em 2022 e o grupo seguiu no capital.
Por fim, o prazo do Banco Central já vinha sendo contado desde julho. O que mudou em outubro foi a régua. E ela subiu justamente quando o calendário apertou.


