O Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) ordenou que todas as agências federais civis removam ferramentas de IA baseadas no DeepSeek de seus sistemas de tecnologia e suspendam qualquer nova contratação do serviço.
Pequim reagiu com protestos formais, exigindo a reversão da medida. O impasse expõe uma assimetria que chama atenção: a China bloqueia em todo o seu território plataformas como ChatGPT, da OpenAI, Claude, da Anthropic, e Gemini, do Google.
A seguir:
- Por que o DHS classificou o DeepSeek como risco de segurança nacional
- Como Pequim respondeu ao banimento e o que prometeu fazer
- A contradição entre o discurso chinês e a política doméstica de bloqueio de IAs ocidentais
O DHS justificou a decisão ao afirmar que o DeepSeek “apresenta múltiplos vetores de ameaça” e que o uso dessas ferramentas por funcionários ou fornecedores do governo americano “pode resultar na transferência de dados sensíveis à China”, uma vez que seus servidores estão localizados no país, onde a legislação local permite que autoridades acessem informações armazenadas por empresas privadas.
A ordem abrange não só os produtos diretos da empresa, mas também aplicações de terceiros construídas sobre os modelos de código aberto do DeepSeek.
O alcance da medida é amplo. Qualquer agência civil federal americana fica impedida de instalar, usar ou contratar soluções derivadas do DeepSeek, mesmo que indiretamente. A decisão consolida um movimento que já estava em curso: a Marinha dos EUA havia adotado restrição similar em momento anterior, e o Congresso americano também identificou o DeepSeek como ameaça à segurança nacional em relatório do Comitê Especial sobre o Partido Comunista Chinês.
Protestos de Pequim e a promessa de retaliação
A reação chinesa foi imediata e veio em duas frentes. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning, declarou que a China “se opõe consistentemente ao uso excessivo do conceito de segurança nacional e à politização de questões de ciência, tecnologia e comércio”, acrescentando que o país irá “salvaguardar resolutamente os direitos e interesses legítimos das empresas chinesas”.
O Ministério do Comércio foi além e prometeu “contramedidas resolutes”. A linguagem escolhida pelos dois ministérios indica que Pequim não trata o episódio como questão técnica, mas como desdobramento da disputa geopolítica por supremacia em inteligência artificial.
A contradição que enfraquece o argumento chinês
O protesto de Pequim ganha contornos paradoxais quando confrontado com sua própria política doméstica. A China mantém um bloqueio sistemático e abrangente a plataformas ocidentais de IA: ChatGPT, Claude e Gemini são inacessíveis para usuários comuns em todo o território nacional. Quem quiser acessar esses serviços precisa recorrer a VPNs, contas corporativas com acesso internacional ou outros meios alternativos.
A assimetria é direta: Washington restringe o DeepSeek apenas em sistemas governamentais federais civis, enquanto Pequim bloqueia IAs ocidentais para toda a população. O argumento de “politização da tecnologia” fica fragilizado diante desse contraste.
Empresas brasileiras e latino-americanas que operam nos dois mercados precisam navegar por esse duplo padrão regulatório ao escolher fornecedores de IA para seus produtos e infraestruturas, algo que o avanço da regulação de IA no Brasil tende a tornar ainda mais relevante nos próximos meses.
O DeepSeek não respondeu aos pedidos de comentário sobre o banimento. A disputa acontece enquanto os EUA também acusam DeepSeek e Alibaba de cópia sistemática de modelos americanos, acusação que a China qualificou como infundada.
A sobreposição de frentes, segurança de dados, propriedade intelectual e acesso a mercado, sinaliza que o confronto entre as duas potências no campo da IA está longe de se limitar a uma única medida regulatória.
Perguntas frequentes
O banimento do DeepSeek nos EUA afeta empresas privadas ou só o governo?
A ordem do DHS se aplica exclusivamente a agências federais civis americanas e seus fornecedores. Empresas privadas, incluindo brasileiras com operações nos EUA, não estão formalmente impedidas de usar o DeepSeek, mas o sinal regulatório pode influenciar políticas internas de governança de IA.
Usuários na China conseguem acessar ChatGPT ou Claude de alguma forma?
Sim, mas por meios alternativos. Segundo o NBC News, usuários chineses recorrem a VPNs e contas corporativas com acesso internacional para usar ChatGPT e Claude, apesar do bloqueio oficial que torna essas plataformas inacessíveis pela rede convencional no país.
O Brasil pode adotar restrição semelhante ao DeepSeek?
Não há nenhuma proposta formal nesse sentido no Brasil até o momento. A regulação brasileira de IA ainda está em fase de estruturação, com foco em usos específicos como investigações criminais, sem vedações por origem geográfica do modelo.


