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Talibã proíbe smartphones para funcionários do governo e ameaça destruir aparelhos no Afeganistão

O Talibã emitiu diretiva proibindo smartphones para funcionários públicos no Afeganistão, com destruição dos aparelhos e punição religiosa. Analistas alertam que a medida pode preceder um banimento nacional.

Integrantes do Talibã durante ação relacionada à proibição de smartphones no Afeganistão.

A seguir:

  1. O Talibã emitiu uma diretiva proibindo o uso de celulares por todos os funcionários governamentais, com punição física para quem descumprir
  2. A medida segue um histórico de cortes de internet e restrições digitais impostas pelo regime desde sua volta ao poder
  3. Analistas alertam que a proibição pode ser apenas o primeiro passo rumo a um banimento nacional de smartphones

O Talibã formalizou esta semana uma proibição de smartphones dirigida a todos os funcionários do governo afegão, de altos cargos a trabalhadores de base. A diretiva, emitida pelos tribunais militares do regime e revisada pelo jornal britânico The Guardian, determina que qualquer aparelho encontrado será destruído e que o infrator estará sujeito a punições legais e religiosas. O documento exige decreto pessoal do líder supremo Hibatullah Akhundzada para conceder exceções.

Proibição de smartphones avança além dos funcionários públicos

Embora a diretiva cite formalmente o funcionalismo público, relatos de dentro do Afeganistão indicam aplicação muito mais ampla. Em algumas províncias, a proibição de smartphones já alcança mulheres, civis, profissionais de saúde, professores e estudantes, uma expansão que ocorre de forma descentralizada, segundo fontes ouvidas pelo The Guardian.

Além disso, vídeos circularam nas redes mostrando um oficial do Talibã lendo a própria ordem de banimento em seu celular enquanto um colega destruía outros aparelhos ao lado. A cena ilustra as contradições internas do regime na implementação da medida. Por outro lado, a destruição física dos smartphones funciona como sinal público de autoridade, e como aviso.

Na província de Herat, no oeste do país, dois funcionários públicos relataram que a proibição de smartphones já estava em vigor há pelo menos dois meses antes da diretiva oficial. Um deles estimou o prejuízo com a destruição do seu aparelho em cerca de 8 mil afeganes, equivalente a aproximadamente 95 libras esterlinas.

Regime usa corte de internet como instrumento de controle

A medida não surge do nada. Em setembro de 2025, o Talibã já havia ordenado um apagão de internet que durou dois dias, justificado de forma vaga como combate à pornografia e à “imoralidade”. O efeito foi imediato e caótico: o comércio travou, serviços de emergência ficaram comprometidos e até a aviação civil foi afetada.

Segundo um analista que trabalha com questões afegãs ouvido pelo The Guardian, o apagão foi desfeito rapidamente porque o próprio regime subestimou as consequências.

“O setor privado entrou em pânico, o setor bancário entrou em pânico, até o pessoal deles,  o setor de segurança e o escritório do líder supremo, perceberam que não tinham pensado direito”, disse. Com isso, a internet foi reativada em poucos dias.

A restrição atual de smartphones, no entanto, parece mais calculada. O analista avalia que as imagens dos protestos em Herat, onde mulheres foram presas por uso impróprio de véu e o Talibã aparentemente atirou contra manifestantes, matando ao menos duas pessoas, aceleraram a decisão. “Os vídeos dos protestos acenderam um alerta. No começo, eles negaram tudo. Depois os vídeos começaram a aparecer.”

Vazamentos internos e improdutividade pressionam o regime

Há, no entanto, motivações de ordem administrativa por trás da proibição de smartphones. O Talibã enfrenta um problema recorrente de vazamento de documentos internos: funcionários usam os celulares para fotografar arquivos oficiais e gravar reuniões, fazendo as informações circularem antes do aval do líder supremo. A disciplina dentro do aparato governamental é uma preocupação central do regime.

Além dos vazamentos, o próprio uso recreativo dos aparelhos dentro dos escritórios é apontado como fonte de queda de produtividade. O analista reconhece que isso não é exclusividade do Afeganistão, “smartphones afetando a produtividade no trabalho é universal”, mas ressalta uma diferença fundamental: “Não conheço nenhum outro país que tenha legislado contra isso.”

O conjunto de fatores, controle da narrativa, supressão de protestos, contenção de vazamentos e imposição de disciplina, aponta para uma estratégia mais ampla de isolamento digital. Para especialistas, a proibição de smartphones pode ser um experimento antes de um banimento nacional, caso o regime avalie que os custos políticos e operacionais são administráveis.

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